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Introdução à ontologia · Primeira parte / Conexão

Conexão

Parágrafo 45

Ao definir o ser como a perfeita independência e a perfeita suficiência, como aquilo que é em si ou aquilo que é si, implicávamos que o ser é a interioridade absoluta fora da qual nada há. Daí ser preciso dizer não apenas que nada lhe é exterior ou que tudo lhe é interior (o que ainda evoca metáforas tomadas ao espaço), mas ainda que nada nele há que possa ser dito exterior a si mesmo ou a uma parte de si mesmo (o que só é possível se ele for identificado ao ato puro) — ou, ainda, que ele é a intimidade de todas as coisas. É o próprio ato pelo qual ela se faz que é, por assim dizer, o ser de cada coisa. Não há, portanto, nada que não participe do ser — não apenas por essa interioridade mesma do ser na qual penetra, mas pela interioridade mesma que lhe é própria. — Ao contrário, diremos da existência que ela supõe uma interioridade dividida. Pois, por um lado, ela surge no seio do próprio ser e faz da interioridade do ser sua própria interioridade, sem ser-lhe, contudo, adequada — ao menos de outro modo que não em potência, e não em ato. A partir daí, podemos dizer que esse ser, que a ultrapassa, lhe é, de alguma maneira, exterior. Mas como poderia ele adquirir, assim, um caráter de exterioridade, ainda que relativa, se é a interioridade absoluta? Pareceria, pois, mais legítimo dizer que é a existência que é exterior em relação ao ser. Mas como seria ela mesma exterior, se é uma participação em sua interioridade? Não há outro recurso senão considerar o próprio ser, enquanto a ultrapassa, como recebendo, por isso, a forma de um dado que a afeta, e em cujo interior ela deve encontrar, ela mesma, uma expressão para marcar, ao mesmo tempo, seus limites no todo do ser e, contudo, sua solidariedade com ele. É a isso, precisamente, que chamamos a realidade. — Mas, se a existência é, por assim dizer, uma mediação entre a interioridade e a exterioridade, a realidade é uma exterioridade pura, uma exterioridade sem interioridade. Assim, ela deve apresentar-se sempre a nós sob a forma de um dado ou de um espetáculo: não há nela nada que seja propriamente interior, nem pelo que ela se dê o ser a si mesma. Permanece, contudo, duplamente em relação com a interioridade, à qual é preciso que se oponha para ser, ela mesma, uma exterioridade: com a interioridade da existência, pois nada é senão por ela e em relação a ela; e com a interioridade mesma do ser, pois é aquilo que, na interioridade do ser, ultrapassa a interioridade da existência, e que se apresenta sempre, para esta, sob a forma da exterioridade.

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