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Introdução à ontologia · Primeira parte / Realidade

Realidade

Parágrafo 38

Apenas, há um preconceito realista, que é preciso combater, ao qual se opõe um preconceito intelectualista, que é sua contrapartida e que é preciso combater igualmente. O preconceito realista consiste em admitir que aquilo que merece o nome de realidade é precisamente um objeto único, que se dissimula por trás da representação das diferentes consciências, e do qual estas obtêm apenas uma imagem subjetiva e, por conseguinte, infiel. E o preconceito intelectualista não consiste em mostrar que esse objeto único não passa de um conceito, mas em fazer do próprio conceito a realidade verdadeira. Assim, as duas doutrinas concordam em sustentar que é a parte comum de todas as representações a parte real, e que a parte individual delas é a parte ilusória. O objeto do realista corre, pois, o risco de ser tão esquemático quanto o conceito do intelectualista, caso se queira que seja independente da percepção que dele temos, e expurgado de tudo o que nela há de irremediavelmente subjetivo. Chega-se, então, a esta consequência paradoxal: para reencontrar o real por trás do dado, é preciso despojar este de tudo o que ele contém de mais rico e de mais vivo, e não deixar subsistir senão os traços gerais que permanecem os mesmos em todas as imagens que dele se possam fazer. Mas é o contrário que é verdadeiro: não há nada em cada uma dessas imagens que não pertença, de alguma maneira, tanto ao real quanto a nós mesmos. Para aproximar-se mais do real, essa imagem precisa sempre ser enriquecida, em vez de empobrecida. Longe de eliminar o que lhe é próprio, seria preciso acrescentar o que é próprio a todas, caso se quisesse reintegrar essa totalidade superabundante e inesgotável, na qual cada uma introduz, por uma análise seletiva, uma perspectiva original que a distingue de todas as outras. A realidade, é verdade, é única em cada ponto: mas é porque em cada ponto vêm também cruzar-se uma infinidade de representações diferentes, das quais ela é, ao mesmo tempo, a soma e o foco. O que há de comum entre elas não pode delas ser isolado: é apenas a lei segundo a qual elas se correspondem. Assim, a realidade reencontra os caracteres que o senso comum lhe atribui: é tudo o que está presente ou que poderia tornar-se presente, tudo o que é dado ou que pode sê-lo — e que já o é pela imaginação. Apenas, pensa-se com demasiada frequência que há uma realidade independente da relação que mantém com a representação que dela temos, de modo que essa representação não cessa de alterá-la. Ao passo que a realidade reside precisamente na relação entre o sujeito da representação e aquilo que, precisamente, o ultrapassa e o limita, mas parece trazer-lhe de fora uma espécie de revelação. O que chamamos realidade não passa, ao que parece, do não-eu: mas o não-eu nada é se não for a interioridade do ser, enquanto a interioridade do eu — isto é, a existência — lhe permanece sempre desigual. A realidade nasce do encontro entre eles. Ou, ainda, preenche todo o intervalo que os separa.

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