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Introdução à ontologia · Primeira parte / Realidade

Realidade

Parágrafo 36

O problema é, primeiramente, saber como a operação pela qual se constitui a existência tem necessariamente como contrapartida uma coisa que lhe corresponde, e da qual é preciso dizer que é dada em vez de vivida, que nos vem de fora em vez de ser engendrada de dentro. Compreende-se sem esforço que a própria interioridade do ser só pode ser assumida por uma existência propriamente individual, mas que então fica condenada a permanecer puramente subjetiva e encerrada nos limites de uma consciência solitária: de fato, é assim que quase sempre se representa a existência, quando se a considera em sua intimidade, nesse segredo em que ela se afirma antes de manifestar-se. Todavia, a existência faz-nos penetrar no ser: como, então, poderia ela dele nos separar? Na realidade, o ato de participação é um ato em que assumo, indivisivelmente, a responsabilidade do todo do ser, e não apenas do ser que vai se tornar meu; ou, antes, o ser que vai se tornar meu é, ao mesmo tempo, uma perspectiva pessoal sobre o todo do ser e uma contribuição pessoal à operação pela qual ele se faz ser. É por isso que minha existência só é uma existência possível enquanto não está expressa — o que, para ela, é cumprir-se; pois esse cumprimento implica que ela imponha sua marca àquilo mesmo que a ultrapassa, de modo a tomar lugar em um mundo que é comum a todas as existências e por cujo meio cada uma delas pode agir sobre as outras, que se tornam, por sua vez, capazes de agir sobre ela. Tal é a razão pela qual a inteligência e o querer aparecem como potências puras enquanto não há um conteúdo que as preencha: é esse conteúdo que constitui, para nós, a realidade. É a matéria de que essa forma precisa, e sem a qual ela permaneceria um apelo que não encontraria resposta. Enquanto se considera a existência fora de sua relação com a realidade, o eu, com efeito, permanece vazio, deficiente, inquieto e miserável: reduz-se ao sentimento de uma falta.

Pensa-se que ele busca apenas crescer — isto é, recuar suas próprias fronteiras —; mas o que ele pede é, antes, que surja esse dado que lhe vem de fora, que vai ocupar toda a capacidade que a reflexão lentamente cavou nele, e que sempre se oferece a ele como um dom. Quer se trate do sensível, no momento em que o conceito consegue cingi-lo, ou da posse, no momento em que ela vem saciar o desejo, em ambos os casos é a presença mesma do real que a existência requer e que, de súbito, lhe permite atualizar-se a si mesma, inscrevendo-se, por assim dizer, no universo.

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