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Introdução à ontologia · Primeira parte / Realidade

Realidade

Parágrafo 35

O prestígio da coisa e do objeto — cuja presença não pode ser recusada — é tal, que acaba por aniquilar a consciência que temos de nossa própria existência, enquanto a damos a nós mesmos, e sem a qual não haveria para nós nem objeto nem coisa; aniquila, com mais razão ainda, essa ideia do ser inteiramente interior a si mesmo, e do qual o objeto ou a coisa só pode ser a exterioridade manifestada. Não é de estranhar, pois, que a palavra realidade seja sempre empregada em sentido laudatório, que o irreal seja muitas vezes empregado no sentido de inexistente ou mesmo de nada — do qual o possível e o ideal são, por assim dizer, apenas espécies. Daí o preconceito que reina em favor do realismo, do qual se pode dizer que é conforme às nossas tendências mais primitivas, e que parece poder invocar em seu favor o testemunho imediato da consciência comum. Em particular, é evidente que a ciência ignora igualmente o ser e a existência, e que busca apenas tomar posse da realidade, analisá-la com cada vez mais exatidão, determinar as relações que reinam entre seus elementos e que nos permitem agir sobre seu conjunto. Mas a filosofia é sempre uma reação contra o realismo: não que ela pretenda negar a realidade tal como é dada, mas ela não quer reduzir a ela nem a existência que podemos dar a nós mesmos, nem o ser, o qual, desde que a participação tenha começado, torna-se o fundamento comum da existência e da realidade. O que caracteriza a filosofia não é sequer, como por vezes se diz, substituir o realismo pelo idealismo — isto é, fazer da realidade uma ideia —, mas, em vez de considerar como um absoluto a realidade tal como nos é dada, buscar explicar por que a realidade pode, com efeito, ser dada.

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