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Introdução à ontologia · Primeira parte / Realidade

Realidade

Parágrafo 34

Assim, só podemos chamar realidade aquilo que assume, para nós, o caráter de uma coisa — isto é, que é sempre, para o eu, um dado, que só tem significação para ele, mas que lhe resiste e que ele nunca consegue assimilar. Só há realidade na res. E nada podemos realizar senão transformando-o em coisa — o que só é possível com a colaboração de todo o universo. Ora, é porque o eu, que está sempre à procura do ser, sente bem que só pode atingi-lo superando-se, que ele, por assim dizer, retira de si mesmo o ser e o busca do lado da realidade — isto é, daquilo mesmo que se lhe opõe e que ele é incapaz de atravessar. Mas esquece, então, que o ser reside na interioridade pura, de modo que só tem acesso a ele pelo ato que cumpre; ao passo que a realidade é o ser ainda, sem dúvida, mas precisamente enquanto se lhe oferece pelo fora e não pelo dentro — isto é, por esse aspecto de si mesmo que ele manifesta aos olhos de um sujeito, no ponto mesmo em que limita sua atividade. Daí essa dupla impressão que é, para nós, inseparável da realidade: a saber, primeiramente, que ela é toda relativa à apreensão de um sujeito e, todavia, que ultrapassa infinitamente essa apreensão. O que explica suficientemente por que, sendo sempre para nós coisa ou objeto, e impondo-se assim a nós contra nossa vontade, ela tende a absorver as duas categorias de ser e de existência: a de ser, que permanece para nós vazia e abstrata enquanto não se enche de todas as determinações concretas extraídas da realidade; a de existência, que para nós não passa de uma possibilidade enquanto não vem coincidir em algum dado, no qual essa possibilidade se atualiza. E é muito notável, por um lado, que, para protestar contra o perigo de considerar o ser como uma unidade puramente formal, se defina o próprio ser como o ens realissimum (de modo que a realitas acaba por tornar-se a essentia, longe de ser confundida com o dado, que, ao contrário, será confundido com a existência); e que, por outro lado, digamos indiferentemente de nossa própria existência, para marcar que ela não permanece puramente virtual, que ela se realiza ou que se atualiza.

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