Existência
Parágrafo 32
Existir é sentir e pensar, diz Aristóteles na Ética a Nicômaco. Tal é a maneira pela qual tomo consciência de uma existência que é a do eu, e da qual se pode dizer, ao mesmo tempo, que ela se desprende do todo do ser por um ato que a identifica com a consciência que dela tenho, e que se opõe à realidade ou à fenomenalidade — que só tem sentido para ela e em relação a ela. E emprego a palavra existência para marcar, precisamente, que ela nasce no ser absoluto sem jamais sair de sua esfera; mas, ao mesmo tempo, dizer que ela é uma existência é dizer que ela é interior a si mesma e que se opõe a tudo o que lhe é exterior, que ela não cessa de rejeitar para fora de si como aquilo que a limita e a determina. É, pois, impossível que ela chegue a prescindir disso, pois não passa de uma participação no ser, a qual, embora abrangendo em potência o todo do ser, está, contudo, engajada em uma situação que requer, para definir-se, ao mesmo tempo, o espaço e o tempo. Ela é, por consequência, obrigada a estabelecer sempre uma espécie de proporção entre a ação de que dispõe e a ocasião que lhe é oferecida: é dessa proporção, sem cessar rompida e sem cessar restabelecida, que resulta o curso mesmo de nossa existência e a significação que podemos dar a nosso destino. E este, que se fixa no tempo e por meio do espaço, transcende, contudo, o tempo e o espaço tanto por sua origem quanto por seu desfecho.