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Introdução à ontologia · Primeira parte / Existência

Existência

Parágrafo 31

Tal é, sem dúvida, o sentido dessa concepção da existência, que se tornou tão célebre nos últimos anos, e na qual o que caracteriza a existência é fazer de cada um de nós um ser que é lançado solitário no mundo, no meio de suas próprias possibilidades, que lhe cabe apenas descobrir e atualizar. De modo que não se sabe se o ser experimenta mais alarme com o pensamento de sentir-se confinado em uma separação ontológica que é incapaz de vencer, de dispor de certas possibilidades misteriosas cuja origem não discerne, ou de determinar seu destino pelo uso que delas faz — uso cujas consequências, contudo, lhe são desconhecidas. Tal é, contudo, a consciência que temos da existência, enquanto ela se exprime por um Cogito novo, que é, por assim dizer, o Cogito da angústia. Pois, se o Cogito cartesiano não bastava para nos revelar a existência, é porque só nos revelava um pensamento ainda indeterminado, considerado apenas na potência que tem de exercer-se — não um pensamento que é o do eu que eu sou, confrontado a certas possibilidades que só a ele pertencem e que, pela atualização que delas faz, determinam todo o seu porvir. Contudo, esse Cogito existencial, tal como é definido, não nos faz remontar até a fonte mesma da existência — isto é, até uma liberdade apreendida no momento em que os possíveis nascem nela, antes que ela já se tenha encerrado neles. A angústia que a aperta e a constringe é o efeito não da simples ambiguidade que ela porta em si, mas de uma impotência para sair dela, de uma complacência em não sair, e de uma inclinação já sentida para essas soluções negativas em que se julga perder contato com a existência, assim que se descobre à existência uma abertura para o ser, mais do que para o nada. Mas a consciência — ou a liberdade, o que vem a dar no mesmo — só nos põe diante da existência pelo próprio acesso que nos dá ao ser, de modo que só se pode enclausurá-la na solidão rompendo seus laços com um todo que ela descobre, fazendo dessa descoberta seu ser próprio. Pois essa perspectiva sobre o todo é também a integração de todas as possibilidades oferecidas à nossa liberdade: elas a dividem e a fazem desabrochar, a fim de lhe permitir agir; são-lhe consubstanciais. Nenhuma delas a restringe; ao contrário, cada uma a dilata e põe em suas mãos uma potência da qual se pode dizer que envolve de certa maneira todas as outras — as quais, em vez de cingirem o eu de modo mais estreito, o ultrapassam e lhe permitem enriquecer-se indefinidamente. Contudo, sua atualização é incerta, porque depende não apenas de minha opção e de minha coragem, mas também de seu encontro com um universo que ora as repele, ora as acolhe. A existência, com efeito, não seria nada se não mergulhasse, para trás, em uma possibilidade que lhe é proposta — mas que lhe cabe reconhecer e adotar como sua —, e, para frente, em uma atualidade que ela determina, mas com a colaboração de todo o universo. A existência reside no ato pelo qual assumo um ser que é meu, e no qual empenho minha própria responsabilidade em relação a ele mesmo e a tudo o que é. Querer reconduzi-la à angústia como a seu centro metafísico mais sensível é negligenciar essa alegria que é também inseparável da existência dada, aceita ou recebida. É supor que a liberdade já entrou em jogo, e que ela atribui mais profundidade à impotência e à derrota do que à confiança e à coragem. A existência nos faz remontar para além dessa alternativa: ela porta em si os dois termos. Ao decidir entre eles, decide sobre si mesma.

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