Pular para o conteúdo

Introdução à ontologia · Primeira parte / Existência

Existência

Parágrafo 27

Essas observações permitem estabelecer uma espécie de inversão nas relações entre a essência e a existência, conforme se trate do eu ou das coisas. Pois o que caracteriza as coisas é serem, para nós, «existências» já realizadas — isto é, realidades. Parece, portanto, que elas supõem sua essência, a qual deve ser, em relação a cada coisa, tal como ela é dada hic et nunc, o fundamento de sua existência. Ao contrário, quando se trata de nós mesmos, a existência tal como nos é dada não é, de modo algum, uma existência já determinada: é, se quisermos, a existência de nossa própria possibilidade, e mesmo a existência de uma ambiguidade entre possibilidades cuja escolha, de algum modo, nos pertence. Tal é a razão pela qual há um conhecimento das coisas, mas não há, ao menos no mesmo sentido, conhecimento do eu. Pois o eu não passa do poder de fazer-se. Mas, então, sua existência antecede sua essência: é o poder mesmo de produzi-la. — Estamos aqui diante de uma dificuldade essencial da reflexão filosófica, já inerente à teoria das ideias no platonismo, e que reside nessa denominação comum que damos às ideias das coisas materiais e às ideias das coisas morais. Pois as ideias das coisas materiais não passam de conceitos que permitem pensá-las, ainda que tendamos a fazer delas essências prévias às quais as coisas deveriam conformar-se para ser. Ora, não é assim, pelo menos, com as ideias das coisas morais, que nossa atividade toma como modelos a fim de fazê-las entrar na existência? Mas mostramos que estas não passam de possibilidades, até que o sujeito, ao atualizá-las, as converta em sua própria essência. Assim, no eu, a existência é a condição que lhe permite adquirir uma essência, ao passo que, nas coisas, a existência só parece realizar uma essência prévia porque é apreendida apenas sob uma forma realizada, e não como um ato que se realiza.

Parágrafo 27 has loaded