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Introdução à ontologia · Primeira parte / Existência

Existência

Parágrafo 26

Compreende-se agora por que Lachelier, opondo igualmente o mundo do ser ao mundo da existência, podia dizer, de uma maneira aparentemente tão estranha, que a existência é o vazio do tempo e do espaço, por oposição ao ser pleno, que não é nem espacial nem temporal. Pois o que caracteriza o espaço e o tempo é exprimir sempre o intervalo que separa, ao mesmo tempo, o ser e a existência, os seres uns dos outros — enquanto se revestem da existência — e, enfim, meu próprio ser de minha própria existência. A necessidade, para a existência, de exprimir-se no mundo do espaço e do tempo testemunha precisamente aquilo que lhe falta de ser — ao menos desse ser puramente interior ao qual a existência nunca é adequada. Todavia, a existência não deve ser identificada ao mundo manifestado, mas ao mundo que se manifesta; nem ao mundo realizado, mas ao mundo que se realiza. Ela não pode ser confundida com o fenômeno. É verdade que o que caracteriza a existência é ocupar lugar em um mundo válido ao mesmo tempo para mim e para todos — e é notável que se resista a empregar a palavra existência quando se trata de uma existência puramente subjetiva (o que justifica as duas interpretações que se podem dar do prefixo ex em existência). É verdade, ainda, que é pela objetividade — isto é, quando entra no espaço e no tempo — que a existência se prova e se cumpre. E, embora minha existência particular resida apenas no segredo do meu próprio eu, é preciso que ela dê testemunho de si mesma e que seja reconhecida pelo outro, o qual, pela comunicação que estabelece entre sua existência e a minha, me confirma em minha própria existência. Só que minha existência nunca é a aparência que mostro: ela é, através da própria aparência, aquilo que não consigo mostrar — e que é exatamente o que produz a aparência, e o que o outro busca atingir em mim para além de minha própria aparência. Não se deve, pois, confundir a existência com a forma que ela toma no espaço e no tempo. É preciso dizer apenas que ela é o que toma forma, e que é obrigada a tomar forma para ser; o tempo e o espaço não devem, portanto, ser considerados apenas como meios em que o ser se divide e se dissolve em existências separadas: são os veículos pelos quais cada existência constitui progressivamente a unidade de sua própria essência com todas as outras existências, em um mundo que lhes é comum.

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