Existência
Parágrafo 25
Mas não posso me contentar em confrontar uma existência particular com o ato puro, atribuindo a essa existência o papel de determinar, por assim dizer, nele sua essência. Pois é possível conceber uma existência particular que esteja, ela mesma, dissociada de sua essência? Seria ela ainda uma existência, particular? Tal é a razão pela qual a existência é, em geral, considerada posterior à essência. Todavia, ninguém pode fazer com que, na experiência que temos de nossa existência, não haja um envolvimento, pelo pensamento, de todas as essências possíveis. E, se não fosse assim, o eu não passaria de uma coisa, e a participação não passaria de um logro. Só que os caracteres próprios da existência nos obrigam a comprometê-la em determinações sem as quais seria impossível que ela se desprendesse do ser absoluto para, de algum modo, conquistar-se a si mesma. Ora, para isso, não basta dizer que ela está submetida a certas limitações ligadas à ideia de um corpo ou de uma natureza. É preciso dizer também que a existência só pode dar a si mesma o ser isolando, no ser, possibilidades que ainda é obrigada a pôr em prática — o que a submete a condições temporais e espaciais sem as quais a participação não poderia produzir-se. Assim, o próprio tempo é definido como o esquema pelo qual o possível penetra em nossa experiência sob a forma de um porvir, que só é realizado quando, após ter atravessado o presente, entra no passado. E o próprio possível permaneceria eternamente subjetivo se não viesse a ocupar lugar em um mundo novo, distinto do mundo do ser, mas tal que fosse comum a todas as existências, que lhes permitisse determinarem-se umas às outras — isto é, agirem e padecerem umas em relação às outras; esse mundo é o mundo do espaço. Assim, somos naturalmente levados a considerar o mundo da existência não apenas como emergente fora do mundo do ser, mas como sendo, em relação a ele, um mundo de manifestação — o que é a definição mesma do mundo espaço-temporal.