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Introdução à ontologia · Primeira parte / Existência

Existência

Parágrafo 24

Chegamos, assim, a uma modificação singular das relações clássicas entre a essência e a existência. Pois dizer que a essência de um ser é o pensamento é dizer também que ele exerce um direito de jurisdição sobre todas as essências possíveis, mas que ele próprio não possui nenhuma. Seria, com efeito, um grave erro imaginar que a essência de cada existência se encontrasse, por assim dizer, pré-formada e já cumprida antes mesmo que a existência fosse dada. Se o que caracterizasse a existência fosse apenas realizar uma essência determinada, não se veria para que essa realização poderia servir. Mas é bem diferente se cabe a cada existência discernir e pôr em prática, na totalidade do ser, aquela possibilidade da qual, precisamente, ela fará sua essência. Ora, é, com efeito, o papel da existência efetuar essa escolha. E isso só seria chocante se o próprio ser fosse imaginado como uma soma de essências particulares, entre as quais cada existência iria reconhecer aquela que lhe convém — seja em virtude de uma harmonia preestabelecida, seja em virtude de uma preferência cuja origem se compreenderia mal se já não fosse uma expressão da essência, seja em virtude de um acaso ainda mais incompreensível. É evidente que não há nenhuma essência no ser antes que a participação tenha começado. Mas o próprio ser não passa de uma eficácia soberana, da qual é preciso dizer que só traz em si as essências particulares como outras tantas possibilidades, que se distinguem e se opõem somente a partir do momento em que são nele evocadas pelas diferentes existências, tão logo estas são chamadas a fazer-se. Vê-se, pois, claramente como há um mundo da existência e da participação, distinto do mundo do ser e dele inseparável, mas que reside na ligação que poderá estabelecer-se, no ser, entre todas as formas de possibilidade que tiverem sido isoladas, assumidas e atualizadas.

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