Existência
Parágrafo 23
A partir daí, no momento em que a existência surge ao se desprender do todo do ser, isso só pode dar-se como um pensamento virtual, que ainda não é o pensamento de nada, mas que já é o pensamento de tudo — isto é, que envolve em potência o todo do ser, do qual, contudo, sabemos que em ato o ultrapassa infinitamente. Ora, com isso contribuímos para manter uma consubstancialidade fundamental entre o ser absoluto e a existência do eu, que é apenas uma parte nesse todo, mas que, todavia, o abraça de maneira virtual. Assim, é preciso dizer, em sentido estrito, que a existência, longe de acrescentar algo ao ser, é um puro poder-ser. Ou, se quisermos, é o ser desse poder-ser. Quando se pergunta a Descartes em que consiste esse «eu penso» que ele acaba de descobrir, e pelo qual se firma de tal modo no ser que não teme dele fazer a primeira certeza ontológica e o fundamento de todas as outras, ele nos diz que se trata de um ser cuja essência inteira consiste em pensar. Mas trata-se aqui de uma essência ou de uma simples possibilidade? O pensamento reside, com efeito, em uma atividade cujo exercício depende de nós; ele só é algo por seu exercício mesmo, que funda precisamente sua existência — mas uma existência que ainda deve cumprir-se, a fim de dar a si mesma uma essência.