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Introdução à ontologia · Primeira parte / Ser

Ser

Parágrafo 17

É no argumento ontológico que se apreende melhor a identidade do ser com a potência infinita da afirmação. Mas pode-se dizer que seu valor aparece com mais força se nele descobrimos não mais um raciocínio que busca concluir, mas uma visão imediata de nosso espírito, inseparável de cada uma de suas operações. É essa visão que se encontra admiravelmente expressa em Descartes, quando este diz que o finito — tal como é apreendido no ato pelo qual eu penso (e do qual só faço a prova pela dúvida) — supõe o infinito do qual ele é a limitação, a saber, um infinito em ato e, de modo algum, um infinito em potência que, como tal, porta precisamente em si a marca da limitação. (De fato, um infinito em potência só pode ser uma participação do finito no infinito — um infinito que é um acréscimo do finito e que, à medida que se acresce, não cessa de acentuar aquilo que lhe falta.) Mas Descartes faz do infinito uma ideia, da qual será preciso demonstrar em seguida que há um ser que lhe corresponde — o que é o objeto próprio do argumento ontológico. No entanto, impressiona ver com que rapidez ele passa por essa transição da ideia à existência. É como se essa passagem fosse evidente. Mal há passagem: pois a ideia de Deus já é o ser de Deus. Como poderia ser de outro modo, se é verdade que essa ideia não pode estar contida em meu pensamento, mas que, antes, é meu pensamento que está contido nela, uma vez que ela o limita? Dirão mesmo que ela é uma ideia, no sentido em que se trataria de uma ideia objetiva — isto é, representativa de um ser que dela se distingue? Já no primeiro argumento em favor da existência de Deus, Descartes não remonta tão facilmente da perfeição em ideia à perfeição formal que ele exige da causa dessa ideia — o que jamais deixa de surpreender o leitor — senão porque já evoca o terceiro, em que o ser está presente em sua ideia, isto é, confunde-se com a própria presença da ideia. Assim, somos inclinados a uma interpretação do argumento ontológico na qual a infinitude, ultrapassando a finitude do ato de meu pensamento, não é a simples infinitude de uma ideia definida como puro objeto de pensamento, mas a infinitude de um ato que se engendra eternamente, e sem o qual meu pensamento não poderia exercer-se — isto é, dar a si mesmo o ser. De modo que a subordinação do Cogito ao argumento ontológico é dupla, pois, por um lado, e de maneira lógica, o infinito é a condição mesma da subsistência do finito; e, por outro lado, de maneira metafísica, o poder que o pensamento tem de dar-se o ser à escala do finito só pode ser atualizado pelo poder que ele tem de dar-se o ser à escala do infinito — do qual o Cogito humano exprime apenas a limitação.

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