Ser
Parágrafo 14
No ato da afirmação, há uma espécie de sobreposição do gnosiológico e do ontológico. Ora, se o gnosiológico nos faz participar do ontológico, ou se há um ser do gnosiológico que é impossível pôr fora do ser do ontológico, a análise da afirmação deve revelar-nos também os caracteres fundamentais do próprio ser. Essa universalidade do ser, que nos obrigava a considerá-lo por inteiro como interior a si mesmo e a encontrar em si mesmo sua própria razão de ser, não pode receber uma interpretação estática; ela exprime apenas uma exigência do pensamento, cujo fundamento está na natureza mesma da afirmação: pois a afirmação é, para si mesma, sua própria origem. Ela é criadora da interioridade, e nada nela há que seja exterior ao próprio ato que a põe. E a afirmação de objeto algum nada mais é do que uma objetivação do ato mesmo da afirmação. — Essa interioridade a si, de um ser fora do qual nada há, pode ser considerada como uma metáfora, se quisermos que a relação de interioridade e exterioridade seja, ela mesma, uma relação de espaço. Mas dirão, ao contrário, que a interioridade espacial, enquanto se opõe à exterioridade, não passa de uma sombra dessa interioridade mais secreta, a-espacial, que não é correlativa de nenhuma exterioridade, e que é, contudo, tal que não pode ser participada sem fazer aparecer uma exterioridade pura — a do espaço —, em que podemos reencontrar, sob uma forma figurada, uma interioridade relativa e derivada, que é a do ato de pensamento que a circunscreve: mas ela procura imitar a outra sem conseguir bastar-se; pois, não apenas deixa fora de si uma outra exterioridade que a ultrapassa, como também ela mesma, no círculo que a abraça, não é feita senão de uma exterioridade recíproca de suas partes. Contudo, uma interioridade a si que exclui toda exterioridade jamais pode ser a de um dado, que só tem sentido por oposição a um ato que o dá a si mesmo. Ela só pode ser a de um ato que reside em seu único cumprimento, isto é, que é sempre criador de si mesmo. É assim que nos aparece nossa própria liberdade em seu exercício puro, que traz em si a possibilidade de todas as afirmações porque traz, antes de tudo, em si a afirmação de si mesma. Diremos desse ato que ele é em si, para traduzir essa perfeição da interioridade que, contudo, já não comporta nenhuma distinção entre um envolvente e um envolvido. Diremos, mais justamente, que ele é si, para marcar que jamais é um dado para outro nem para si mesmo, ou ainda que só tem relação consigo mesmo, ou ainda que é a origem de todas as relações sem ser, ele próprio, uma relação. Diremos, enfim, que ele é causa de si, para exprimir que nada mais há nele do que ele mesmo, que se cria — sem que se possa, contudo, distinguir, do si que cria, um si criado (pois sua própria essência é ser sempre criando e jamais criado, sempre causando e jamais causado) —, sem que, sobretudo, se possa introduzir o tempo como a condição mesma de tal ato (pois, se é verdade que o ato, assim que recebe alguma limitação, desdobra seus efeitos no tempo, em sua natureza própria de ato ele só se exerce no instante, manifestando assim, até mesmo no tempo, seu caráter propriamente intemporal).