Ser
Parágrafo 7
Há, na simples enunciação da palavra ser, uma espécie de exigência implacável e de invencível necessidade. Pois essa única palavra basta para pôr o objeto que designa, para mostrar que há alguma coisa — ainda que seja apenas a própria palavra — e para excluir o nada. Mas essa palavra tem uma virtude muito maior: ela nos obriga a reconhecer de imediato, e antes mesmo de toda experiência real, que envolve toda experiência possível, que nada pode estar fora nem de sua extensão nem de sua compreensão. Tal é o sentido da dupla afirmação de Parmênides — «o ser é, o não-ser não é» —, que podemos considerar como o ato de consciência metafísica sem o qual todo outro ato de pensamento perderia seu suporte e sua validade. E nenhuma dessas duas proposições é vã, se é verdade que a noção de ser é, com efeito, a única que não se pode evocar sem ser obrigado a afirmá-la, nem supor negada sem ser obrigado a negar sua negação, de modo que, longe de temer não poder encontrar o ser, é preciso, ao contrário, ter a certeza de não poder escapar dele — o que confere à nossa existência um alcance e uma gravidade que de outro modo ela não poderia conhecer. Podemos exprimir isso dizendo, primeiramente, que o ser é universal — isto é, que fora dele não há nada, e que esse nada nada é —; em seguida, que ele é unívoco — isto é, que, qualquer que seja a diferença entre seus modos (por exemplo, entre o possível e o realizado), ela não atinge o ser desses modos.