Distinção
Parágrafo 6
O ser, a existência e a realidade são os três aspectos diferentes sob os quais o todo pode ser considerado em relação à participação. Em cada um desses três aspectos ele está envolvido por inteiro; é apenas a perspectiva que muda. Mas a escolha que se faz de uma ou de outra dessas perspectivas permite compreender as principais direções nas quais o pensamento filosófico se engajou.
1º o emprego da palavra ser caracteriza todas as doutrinas em que a participação é considerada em sua fonte, isto é, naquela onipresença da qual ela bebe e que jamais cessa de dividir: compreende em si, ao mesmo tempo, a existência e a essência. A ontologia tradicional deve ser considerada como uma filosofia do ser;
2º a palavra existência retém da participação o ato pelo qual ela se realiza; implica não um desprestígio da essência, mas a impossibilidade de considerá-la senão no ato pelo qual um indivíduo a assume. Esta filosofia, cuja inspiração não é nova, recebeu, em nossos dias, sob o nome de existencialismo, um desenvolvimento notável.
Enfim, 3º só se faz uso da palavra realidade para marcar que se pretende reter da participação apenas suas formas já cumpridas: por isso, a realidade é sempre dada; só pode ser apreendida como um fato de experiência, seja em sua forma física, seja em sua forma psicológica. Só a realidade conta, não apenas para o realismo e para o empirismo, mas também para a ciência, cujo objetivo é precisamente dela tomar posse. Essas três palavras nos revelam três atitudes diferentes do espírito diante da participação, das quais a primeira a considera em sua fonte, a segunda em seu ato e a terceira em seu efeito.
Acontece com frequência que se tomem os termos ser, existência e realidade no mesmo sentido. O que, de certa maneira, é legítimo, precisamente na medida em que, por um lado, todos os três se opõem a conceitos negativos — não-ser, inexistência e irrealidade —, e, por outro lado, o ser é, ele próprio, o termo originário ao qual os dois outros sempre se referem. Mas a oposição desses três termos permite-nos compreender o jogo da participação e, em vez de bloquear o ser em uma imobilidade estática, obrigá-lo, ao dar nascimento às duas noções de existência e de realidade, a desvelar sua fecundidade. Dando dessas palavras a definição mais rigorosa, parece, pois, que se possa chegar, no que diz respeito às primeiras proposições da metafísica, a um acordo entre todos os espíritos e a certezas demonstráveis.