Distinção
Parágrafo 4
Não podemos, com efeito, em caso algum perder de vista que toda afirmação é nossa afirmação, e supõe, indivisivelmente, uma afirmação de nós mesmos e de todo o afirmável. Será dizer que somos assim reconduzidos a essa correlação do sujeito e do objeto, e a essa preeminência do sujeito sobre o objeto, de onde saiu o idealismo? Mas isto não passa de aparência. Pois o afirmante e o afirmado estão compreendidos um e outro no todo da afirmação. É verdade, sem dúvida, que o todo da afirmação só pode ser definido como um afirmante cujo ato de afirmação não receberia limitação alguma e coincidiria com todo o afirmável. Isso significa que aqui se apaga a distinção entre o afirmado e o afirmante. Mas significa também que há uma experiência ontológica que não é a experiência da oposição entre um sujeito e um objeto, mas a experiência da inscrição em um ser do qual eu participo por uma existência que é a minha, mas que é ela mesma ultrapassada por uma realidade com a qual estou em relação e que preenche todo o intervalo entre esse ser e essa existência. Em um sentido, é preciso dizer que só há ser para quem considera apenas a fonte comum da existência e da realidade; que só há existência para quem, no ser, considera apenas o ato pelo qual ele mesmo se faz ser; que só há realidade para quem considera o ser inteiro como um ser dado. Mas essa análise nos revela, por assim dizer, a vida profunda do ser, que sem dúvida não seria mais que uma abstração pura se não surgisse uma existência que faz aparecer ao seu redor a realidade como seu horizonte. É, pois, o eu que, no momento em que se descobre como engajado no ser do todo e introduz uma distinção entre o ser que é ele e o ser que não é ele — mas que só tem sentido para ele —, permite fundar a dualidade da existência e da realidade. E, como se vê no capítulo VII de nosso livro Do Ser, é também o eu que nos revela ao mesmo tempo a unidade do ser — da qual é preciso dizer que ele exprime uma potencialidade — e sua infinitude, da qual é preciso dizer que ele a faz explodir em uma multiplicidade de modos que não cessa de atualizar.