― A mim? perguntou Rubião depois de alguns segundos.
― A você, confirmou o Palha. Devia tê-la dito há mais tempo, mas estas histórias de casamento, de comissão das Alagoas, etc., atrapalharam-me, e não tive ocasião; agora, porém, antes do almoço… Você almoça comigo.
― Sim, mas que é?
― Uma coisa importante.
Dizendo isto, tirou um cigarro, abriu-o, desfiou o fumo com os dedos, enrolou a palha outra vez, e riscou um fósforo, mas o vento apagou o fósforo. Então pediu ao Rubião que lhe fizesse o favor de segurar o chapéu, para poder acender outro. Rubião obedeceu impaciente. Bem pode ser que o sócio, esticando a espera, quisesse justamente fazer-lhe crer que se tratava de um terremoto; a realidade viria a ser um benefício. Puxadas duas fumaças:
― Estou com meu plano de liquidar o negócio; convidaram-me aí para uma casa bancária, lugar de diretor, e creio que aceito.
Rubião respirou.
― Pois sim; liquidar já?
― Não, lá para o fim do ano que vem.
― E é preciso liquidar?
― Cá para mim, é. Se a história do banco não fosse segura, não me animaria a perder o certo pelo duvidoso; mas é seguríssima.
― Então no fim do ano que vem soltamos os laços que nos prendem…
Palha tossiu.
― Não, antes, no fim deste ano.
Rubião não entendeu; mas o sócio explicou-lhe que era útil desligarem já a sociedade, a fim de que ele sozinho liquidasse a casa. O banco podia organizar-se mais cedo ou mais tarde; e para que sujeitar o outro às exigências da ocasião? Demais, o Dr. Camacho afirmava que, em breve, Rubião estaria na câmara, e que a queda do ministério era certa.
― Seja o que for, concluiu; é sempre melhor desligarmos a sociedade com tempo. Você não vive do comércio; entrou com o capital necessário ao negócio, ― como podia dá-lo a outro ou guardá-lo.
― Pois sim, não tenho dúvida, concordou o Rubião.
E depois de alguns instantes:
― Mas diga-me uma coisa, essa proposta traz algum motivo oculto? é rompimento de pessoas, de amizade… Seja franco, diga tudo.
― Que caraminhola é essa? redarguiu o Palha. Separação de amizade, de pessoas… Mas você está tonto. Isto é do balanço do mar. Pois eu, que tenho trabalhado tanto por você, eu que o faço amigo dos meus amigos, que o trato como um parente, como um irmão, havia de brigar à toa? Aquele mesmo casamento de Maria Benedita com o Carlos Maria devia ser com você, bem sabe, se não fosse a sua recusa. A gente pode romper um laço sem romper os outros. O contrário seria despropósito. Então todos os amigos de sociedade ou de família são sócios de comércio? E os que não forem comerciantes?
Rubião achou excelente a razão, e quis abraçar o Palha. Este apertou-lhe a mão satisfeitíssimo; ia ver-se livre de um sócio, cuja prodigalidade crescente podia trazer-lhe algum perigo. A casa estava sólida; era fácil entregar ao Rubião a parte que lhe pertencesse, menos as dívidas pessoais e anteriores. Restavam ainda algumas daquelas que o Palha confessou à mulher, na noite de Santa Teresa, cap. l. Pouco tinha pago; geralmente era o Rubião que abanava as orelhas ao assunto. Um dia, o Palha, querendo dar-lhe à força algum dinheiro, repetiu o velho provérbio: “Paga o que deves, vê o que te fica”. Mas o Rubião, gracejando:
― Pois não pagues, e vê se te não fica ainda mais.
― É boa! redarguiu o Palha rindo e guardando o dinheiro no bolso.