Retardaram-se, temerosos. Olharam os quatro cantos, as sombras se estendendo, a noite cobrindo a terra. Poderia vir daí uma desgraça, bicho ou gente. Fabiano meteu a mão no cinturão e segurou o cabo da faca de ponta. Voltariam? Não podiam voltar. O chiqueiro estava vazio, as porteiras do curral tinham caído.
Uma cidade grande, cheia de pessoas fortes. Os meninos em escolas, aprendendo coisas difíceis e necessárias. Eles dois velhinhos, acabando-se como uns cachorros, inúteis, acabando-se depressa de fadiga.
Não, provavelmente não se acabariam. Estariam sempre com as suas camas nas costas, caminhando, caminhando, o mundo todo se espalhando diante deles, andando atrás de uma felicidade impossível. Naquele momento não poderiam dizer se ela existia. Olhavam um para o outro e sentiam vergonha. A esperança ia se diluindo. Tinham criado raízes, começavam a acostumar-se. Agora recebiam uma ordem breve e dura: iam-se embora. Para onde?
E viviam numa terra alheia. Apenas possuíam a força do trabalho, uns trapos sujos, as armas e os utensílios. Fabiano tinha a certeza de que não possuía nada. Entregara ao patrão tudo o que colhera. Estava direito. Nascera com esse destino, ninguém tinha culpa de ele haver nascido com um destino ruim. Era uma sorte ruim, mas estava dito: "Fora isso"! Compreendia que era assim, acostumara-se. E não queria mudar de sorte. Tinha medo de mudar de sorte. Esticou o beiço, arreliado.
Sinha Vitória pôs a mão no ombro do companheiro e falou dos meninos. Era necessário, absolutamente necessário, criá-los, aumentá-los. Fabiano sentia necessidade de um desabafo. Não se podia viver assim, como bichos.
Chegariam a uma terra desconhecida e civilizada, ficariam presos nela. E o sertão continuaria a mandar gente para lá. O sertão mandaria para a cidade homens fortes, brutos, como Fabiano, Sinha Vitória e os dois meninos.