Levantamo-nos e fomos tomar café no salão.
— Sim senhor, comunista!
— É a corrupção, a dissolução da família — teimava padre Silvestre.
Ninguém respondeu.
Ignoro essas coisas, naturalmente, mas desejei saber o que Madalena pensava a respeito delas.
O vigário só fazia gritar.
Qual seria a opinião de Madalena?
— Aí padre Silvestre tem razão — concordou Gondim. — A religião é um freio.
— Bobagem! — disse Nogueira. — Quem é cavalo para precisar freio?
Qual seria a religião de Madalena? Talvez nenhuma. Nunca me havia tratado disso.
— Monstruosidade.
E repeti baixinho, lentamente e sem convicção:
— Monstruosidade!
Materialista. Lembrei-me de ter ouvido Costa Brito falar em materialismo histórico. Que significava materialismo histórico?
A verdade é que não me preocupo muito com o outro mundo. Admito Deus, pagador celeste dos meus trabalhadores, mal remunerados cá na terra, e admito o diabo, futuro carrasco do ladrão que me furtou uma vaca de raça. Tenho portanto um pouco de religião, embora julgue que, em parte, ela é dispensável num homem. Mas mulher sem religião é horrível.
Comunista, materialista. Bonito casamento! Amizade com o Padilha, aquele imbecil. "Palestras amenas e variadas." Que haveria nas palestras? Reformas sociais, ou coisa pior. Sei lá! Mulher sem religião é capaz de tudo.
— Sem dúvida — respondi a uma lenga-lenga que padre Silvestre me infligia.
Seu Ribeiro e Azevedo Gondim amolavam-se, com pachorra. D. Glória cochilava. Padilha fumava a um canto.
— Provavelmente.
Creio que disse disparate, porque padre Silvestre divergiu e sapecou-me uma demonstração incompreensível.
Procurei Madalena e avistei-a derretendo-se e sorrindo para o Nogueira, num vão de janela.
Confio em mim. Mas exagerei os olhos bonitos do Nogueira, a roupa benfeita, a voz insinuante. Pensei nos meus oitenta e nove quilos, neste rosto vermelho de sobrancelhas espessas. Cruzei descontente as mãos enormes, cabeludas, endurecidas em muitos anos de lavoura. Misturei tudo ao materialismo e ao comunismo de Madalena — e comecei a sentir ciúmes.