Durante o jantar, estiveram todos muito animados. E até eu, que ignoro os assuntos que eles debatiam, entrei na dança.
Para começar, Azevedo Gondim, a quem o conhaque tinha tirado as peias da língua, elogiou a vida campestre:
— Isto é que é! Vejam se na cidade, ciscando no fundo dos quintais, se criava um peru deste tamanho. Que bicho fornido! Benza-o Deus.
D. Glória deu um muxoxo e desviou a vista do centro da mesa, onde, acocorado na travessa, um peru recebia aqueles louvores despropositados. Padre Silvestre acompanhou o movimento de d. Glória e deu com os olhos nos canteiros do jardim e nas alamedas do pomar.
— Realmente deve ser uma delícia viver neste paraíso. Que beleza!
— Para quem vem de fora, atalhei. Aqui a gente se acostuma. Afinal não cultivo isto como enfeite. É para vender.
— As flores também? — perguntou Azevedo Gondim.
— Tudo. Flores, hortaliça, fruta...
— Está aí! — exclamou padre Silvestre, balançando a cabecinha grisalha e enrugando a testa estreita. — O que é ter senso! Se todos os brasileiros pensassem assim, não estaríamos presenciando tanta miséria.
— Política, padre Silvestre? — fez João Nogueira, sorrindo.
Padre Silvestre arregalou os olhinhos baços:
— Por que não? O senhor há de confessar que estamos à beira de um abismo.
Padre Silvestre é desorientado. Com uma freguesia trabalhosa, anda no mundo da lua. Danadamente liberal.
Padilha meteu o bedelho na conversa:
— Apoiado.
— Um abismo — repetiu padre Silvestre.
— Que abismo? — perguntou Azevedo Gondim.
O reverendo estudou uma resposta enérgica:
— Isso que se vê. É a falência do regime. Desonestidades, patifarias.
— Quais são os patifes? — inquiriu João Nogueira.
Padre Silvestre estirou o beiço inferior e amoitou-se. As opiniões dele são as opiniões dos jornais. Como, porém, essas opiniões variam, padre Silvestre, impossibilitado de admitir coisas contraditórias, lê apenas as folhas da oposição. Acredita nelas. Mas experimenta às vezes dúvidas. Elas juram que os homens do governo são malandros, e ele conhece alguns respeitáveis. Isso prejudica as convicções que a letra impressa lhe dá. Necessitando acomodar as suas observações com as afirmações alheias, acha que os políticos, individualmente, são criaturas como as outras, mas em conjunto são uns malfeitores.
— Ora essa! Não me compete denunciar ninguém. Os fatos são os fatos. Observe.
— É bom apontar — insistiu João Nogueira.
— Para quê? A facção dominante está caindo de podre. O país naufraga, seu doutor. É o que lhe digo: o país naufraga.
Passei-lhe uma garrafa e informei-me:
— Que foi que lhe aconteceu para o senhor ter essas ideias? Desgostos? Cá no meu fraco entender, a gente só fala assim quando a receita não cobre a despesa. Suponho que os seus negócios vão bem.
— Não se trata de mim. São as finanças do Estado que vão mal. As finanças e o resto. Mas não se iludam. Há de haver uma revolução!
— Era o que faltava. Escangalhava-se esta gangorra.
— Por quê? — perguntou Madalena.
— Você também é revolucionária? — exclamei com mau modo.
— Estou apenas perguntando por quê.
— Ora, por quê? Porque o crédito se sumia, o câmbio baixava, a mercadoria estrangeira ficava pela hora da morte. Sem falar na atrapalhação política.
— Seria magnífico — interrompeu Madalena. — Depois se endireitava tudo.
— Com certeza — apoiou Luís Padilha.
— Vocês sabem o que estão dizendo?
— O que admira é padre Silvestre desejar a revolução — disse Nogueira. — Que vantagem lhe traria ela?
— Nenhuma — respondeu o vigário. — A mim não traria vantagem. Mas a coletividade ganharia muito.
— Esperem por isso — atalhou Azevedo Gondim. — Os senhores estão preparando uma fogueira e vão assar-se nela.
— Literatura! — resmungou Padilha.
— Literatura não — gritou Azevedo Gondim. — Se rebentar a encrenca, há de sair boa coisa, hem, Nogueira?
— O fascismo.
— Era o que vocês queriam. Teremos o comunismo.
D. Glória benzeu-se e seu Ribeiro opinou:
— Deus nos livre.
— Tem medo, seu Ribeiro? — perguntou Madalena, sorrindo.
— Já vi muitas transformações, excelentíssima, e todas ruins.
— Nada disso — asseverou padre Silvestre. — Essas doutrinas exóticas não se adaptam entre nós. O comunismo é a miséria, a desorganização da sociedade, a fome.
Seu Ribeiro passou os dedos pela careca lustrosa:
— No tempo de d. Pedro, corria pouco dinheiro, e quem possuía um conto de réis era rico. Mas havia fartura, a abóbora apodrecia na roça. Mamona, caroço de algodão, não tinham valor. Com a proclamação da república ficaram custando os olhos da cara. Por isso eu digo que essas mudanças só servem para atrapalhar a vida. A estrada de ferro...
— Uma nação sem Deus! — bradava padre Silvestre a d. Glória. — Fuzilaram os padres, não escapou um. E os soldados, bêbedos, espatifavam os santos e dançavam em cima dos altares.
D. Glória gemia com as mãos no peito:
— Que horror! É possível! Nos altares!
— Espatifaram nada! — interveio Padilha. — Isso é propaganda contrarrevolucionária.
— E o senhor trabalha para isso, padre Silvestre — exclamou Gondim.
O vigário desculpou-se:
— Eu não. Estou quieto, no meu canto. Agora achar que o governo é mau, eu acho. Que há urgências de reforma, há. Quanto ao comunismo, lorota, não pega. Descansem: entre nós não pega. O povo tem religião, o povo é católico.
João Nogueira discordou:
— É o que ele não é. Ninguém conhece doutrina. Se um protestante canta hinos e prega o evangelho, os devotos das procissões vão escutá- lo; outros pendem para o espiritismo; e a canalha acredita em feitiçaria e até adora árvores. Muitos entram no catolicismo como num hotel, escolhem um prato, com fastio, e cruzam o talher. Os mais avançados são dispépticos. O senhor se engana, padre Silvestre; essa gente ouve missa, mas não é católica, e tanto se deixa levar para um lado como para outro.
Padre Silvestre desnorteou-se:
— Nesse caso...
Mas João Nogueira tinha terminado. E estava conversando comigo, em voz baixa, esculhambando o dr. Magalhães.
Madalena falava com seu Ribeiro:
— Que é que o senhor perdia?
— Não sei, excelentíssima. Talvez perdesse. A mim só chegam desgraças. Enfim tenho aqui um pedaço de pão. E se essa infelicidade viesse, nem isso me davam.
Madalena procurava convencê-lo, mas não percebi o que dizia. De repente invadiu-me uma espécie de desconfiança. Já havia experimentado um sentimento assim desagradável. Quando?
João Nogueira aniquilava o dr. Magalhães. D. Glória, cheia de comida e de calor, ia cerrando os olhos, já indiferente ao perigo que anunciavam. Seu Ribeiro, cabeçudo, não queria inovações. E Azevedo Gondim, vermelho, afirmava a padre Silvestre:
— Não há. O Nogueira tem razão, não há. Conheço homens que defendem a religião nos jornais e nunca viram a Bíblia.
Quando? Num momento esclareceu-se tudo: tinha sido naquele mesmo dia, no escritório, enquanto Madalena me entregava as cartas para assinar.
Sim senhor! Conluiada com o Padilha e tentando afastar os empregados sérios do bom caminho. Sim senhor, comunista! Eu construindo e ela desmanchando.