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— Ó Gondim, eu precisava falar com você.

Ficou.

— Estou morrendo de fome, Gondim. Dois dias quase sem comer! Calcule. Vamos jantar?

Recusou o jantar, mas aceitou um copo de cerveja. Quando cheguei à sobremesa, ele ia na terceira garrafa.

— Ó Gondim, você me falou há tempo numa professora.

— A Madalena?

— Sim. Encontrei-a uma noite destas e gostei da cara. É moça direita?

Azevedo Gondim encetou a quarta garrafa de cerveja e desmanchou-se em elogios.

— Mulher superior. Só os artigos que publica no Cruzeiro!

Desanimei:

— Ah! Faz artigos!

— Sim, muito instruída. Que negócio tem o senhor com ela?

— Eu sei lá! Tinha um projeto, mas a colaboração no Cruzeiro me esfriou. Julguei que fosse uma criatura sensata.

— Essa agora! — bradou Gondim picado. — O senhor tem cada uma!

— Está bem. Para você não há segredo. Ouça. Estou aborrecido com o Padilha.

— Alguma carraspana que ele tomou?

— Pior. Anda querendo botar socialismo na fazenda. Surpreendi-o dizendo besteiras. Não liguei importância, tanto que o conservei, mas, o caso bem pensado, talvez fosse melhor arranjar para ele outra colocação, fora.

— E convidar a Madalena.

— Sim, estive pensando. Não sei. Se ela for moça de bons costumes.

— De bons costumes? Claro. O diabo é que talvez não aceite. Morar nas brenhas!

— Isso são bobagens da tia, uma velha tonta. Mas a outra, se tem juízo como você diz, aceita.

Azevedo Gondim mastigava amendoins torrados e bebia cerveja:

— É, pode ser. Vantagem para ela, com certeza, aumento de ordenado.

— Sem dúvida.

— Pode ser. Eu só tenho pena do pobre do Padilha.

— Não. Cavo uma colocação para ele. Já não lhe disse? É um canalha, coitado. E a respeito da moça...

— O senhor entendeu-se com ela?

— Não, homem. Se me tivesse entendido, não estava consultando você. Ó Gondim, faça-me um favor. Foi justamente para isso que lhe pedi que ficasse. Sonde a mulher.

Azevedo Gondim resistiu, encarecendo o serviço que ia prestar:

— Mas eu não tenho intimidade com ela. Fale o senhor.

— Impossível. Há dois dias que estou ausente. Preciso chegar a S. Bernardo hoje. E não sei a maneira de tratar com essa gente. Muitas voltas... Peite a moça, Gondim, faça-me o favor.

— Pois sim. Arrumo-lhe a paisagem, a poesia do campo, a simplicidade das almas. E se ela não se convencer, sapeco-lhe um bocado de patriotismo por cima.

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