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Alguns dias depois achava-me no banheiro, nu, fumando, fantasiando maluqueiras, o que sempre me acontece. Fico assim duas horas, sentado no cimento. Tomo uma xícara de café às seis horas e entro no banheiro. Saio às oito, depois das oito. Visto-me à pressa e corro para a repartição. Enquanto estou fumando, nu, as pernas estiradas, dão-se grandes revoluções na minha vida. Faço um livro, livro notável, um romance. Os jornais gritam, uns me atacam, outros me defendem. O diretor olha-me com raiva, mas sei perfeitamente que aquilo é ciúme e não me incomodo. Vou crescer muito. Quando o homem me repreender por causa da informação errada, compreenderei que se zanga porque o meu livro é comentado nas cidades grandes. E ouvirei as censuras resignado. Um sujeito me dirá:

“Meus parabéns, seu Silva. O senhor escreveu uma obra excelente. Está aqui a opinião dos críticos.”

“Muito obrigado, doutor.”

Abro a torneira, molho os pés. Às vezes passo uma semana compondo esse livro que vai ter grande êxito e acaba traduzido em línguas distantes. Mas isto me enerva. Ando no mundo da lua. Quando saio de casa, não vejo os conhecidos. Chego atrasado à repartição. Escrevo omitindo palavras, e se alguém me fala, acontece-me responder verdadeiros contrassensos. Para limitar-me às práticas ordinárias, necessito esforço enorme, e isto é doloroso. Não consigo voltar a ser o Luís da Silva de todos os dias. Olham-me surpreendidos: naturalmente digo tolices, sinto que tenho um ar apalermado. Tento reprimir essas crises de megalomania, luto desesperadamente para afastá-las. Não me dão prazer: excitam-me e abatem-me. Felizmente passam-se meses sem que isto me apareça.

De ordinário fico no banheiro, sentado, sem pensar, ou pensando em muitas coisas diversas umas das outras, com os pés na água, fumando, perfeitamente Luís da Silva. Uma formiga que surge traz-me quantidade enorme de recordações, tudo quanto li em almanaques sobre os insetos. Agora não há nenhum livro traduzido, nenhuma vaidade. Olho a formiga. Quando ela vai entrar no formigueiro, trago-a para perto de mim, faço no chão um círculo com o dedo molhado, deixo-a numa ilha, sem poder escapulir-se. Observo-a e penso nos costumes dela, que vi nos almanaques.

O banheiro da casa de seu Ramalho é junto, separado do meu por uma parede estreita. Sentado no cimento, brincando com a formiga ou pensando no livro, distingo as pessoas que se banham lá. Seu Ramalho chega tossindo, escarra e bate a porta com força. Molha-se com três baldes de água e nunca se esfrega. Bate a porta de novo, pronto. Aquilo dura um minuto. D. Adélia vem docemente, lava-se docemente e canta baixinho: “Bendito, louvado seja…”. Marina entra com um estouvamento ruidoso. Entrava. Agora está reservada e silenciosa, mas o ano passado surgia como um pé de vento e despia-se às arrancadas, falando alto. Se os botões não saíam logo das casas, dava um repelão na roupa e largava uma praga: “Com os diabos!”. Lá se iam os botões, lá se rasgava o pano. Notavam-se todas as minudências do banho comprido. Gastava dez minutos escovando os dentes. Pancadas de água no cimento e o chiar da escova, interrompido por palavras soltas, que não tinham sentido. Em seguida mijava. Eu continha a respiração e aguçava o ouvido para aquela mijada longa que me tornava Marina preciosa. Mesmo depois que ela brigou comigo, nunca deixei de esperar aquele momento e dedicar a ele uma atenção concentrada. Quando Marina se desnudou junto de mim, não experimentei prazer muito grande. Aquilo veio de supetão, atordoou-me. E a minha amiga opôs uma resistência desarrazoada: cerrava as coxas, curvava­-se, cobria os peitos com as mãos, e não havia meio de estar quieta. Agora arrancava os botões, praguejava, escovava os dentes, mijava. Abria-se a torneira: rumor de água, uns gritinhos, resfolegar de animal novo. A torneira se fechava — e era uma esfregação interminável.

“Para casa, Marina”, bradava d. Adélia. “Acabe com isso. Você gasta o sabão todo.”

Marina dava um muxoxo, e o movimento das mãos friccionando a pele macia continuava.

“Baixe o fogo, Marina! Venha para casa.”

A espuma entrando nos sovacos e nas virilhas fazia um gluglu que me excitava extraordinariamente. Parecia que Marina queria esfolar-se. Imaginava-a em carne viva, toda vermelha. Imaginava-a branquinha, coberta de uma pasta de sabão que se rachava, os cabelos alvos, como uma velha. Essas duas imagens me davam muito prazer. Queria que aparecesse a Julião Tavares assim encarnada e pingando sangue, ou encarquilhada e decrépita, os pelos do ventre como um capulho de algodão. A torneira se abria. Lá estava Marina outra vez nova e fresca, enchendo a boca e atirando bochechos nas paredes, resfolegando, sapecando frases desconexas.

Nunca tive o desejo de vê-la nesse estado. No alto da parede há um tijolo deslocado que se pode retirar facilmente. Pondo um caixão na beira do tanque, ser-me-ia possível afastar o tijolo e distinguir o corpo de Marina. A experiência não me tentou. O esforço necessário para manter-me em equilíbrio reduzir-me-ia a atenção. E eu não queria vê-la despida sem o consentimento dela. Contentava-me com aqueles rumores, e percebia-a como se a visse. Poderia daqui palestrar com ela no tempo em que éramos amigos. Teríamos a impressão de que nos banhávamos juntos. Mas a minha amiga ficaria limitada pelas conveniências, armando frases, procurando ser amável. O que me encantava eram aqueles modos de garota estabanada, as palavras soltas à toa, pedaços de cantigas, o gluglu da espuma e a mijada sonora.

Pois tudo isso desapareceu. Fazia algum tempo que os rumores familiares se vinham atenuando, mas naquele dia tudo se tornou claro, a suspeita que tive na rua se confirmou. Marina entrou no banheiro e esteve uns minutos em silêncio, despindo-se com lentidão. Os movimentos dela eram tão vagarosos que eu os percebia a custo. Era preciso adivinhá-los. Assoou-se e lavou as mãos na torneira.

“Virgem Nossa Senhora!”

E punha-se a cuspir. Aquela queixa mostrava um desengano enorme. Pareceu-me que o mundo se tinha despovoado e Marina estava completamente só. Senti o desejo de bater na parede e chamá-la:

“Marina, que foi que aconteceu?”

Queria que ela me iludisse, jurasse que não havia acontecido nada. Mordi as mãos para não gritar.

Afastei-me, como um bêbedo. Mas o ventre disforme continuava a perseguir-me. Era-me necessário falar, ir ao café, libertar-me da obsessão, do ódio que me enchia.

Com certeza não precisava de mim. Precisava de Julião Tavares, que tinha levado sumiço. As cusparadas sucediam-se. Marina assoava-se e lavava os dedos. Os soluços subiam e desciam. Aquele muco que a água levava, as lágrimas, a saliva abundante, aquela miséria, aquele abandono, tudo me atraía.

“Valha-me Nossa Senhora.”

Isto me cortava o coração e aumentava o meu ódio a Julião Tavares. Vi-o claramente como o vi na tarde em que o surpreendi à minha janela, derretendo-se para Marina. Atrapalhado, procurara tapear-me com adulações. Eu resmungava pragas obscenas e andava de uma parede a outra, sentia desejo imenso de fugir, pensava na fazenda, em Camilo Pereira da Silva, em Amaro vaqueiro e nas cobras, especialmente numa que se enrolara no pescoço do velho Trajano.

“Que vai ser de mim, santo Deus?”

O escorrego de Marina era evidente. Lembrei-me do meu despeito, de palavras duras jogadas a d. Adélia meses antes: “A senhora pensa que ela endireita? Perca as esperanças. Aquela dá com os burros na água”. Estava agora ali, enojada, cuspindo, apalpando a barriga e os peitos intumescidos. E o pranto subia e descia, era às vezes um lamento de criança fatigada, outras vezes os soluços rebentavam, numa rajada de gritos histéricos e bestiais. Olharia realmente a barriga e os peitos que se avolumavam? Impossível imaginar qualquer coisa sobre os movimentos dela. Gemidos e choro. Nenhum outro som. Desespero estúpido, revolta de bicho logrado. Nem palavras soltas, nem cantigas, nem passos no cimento molhado, nem água correndo da torneira. Dias antes esses rumores combinados me davam uma imagem quase perfeita de Marina. Sabia quando ela se baixava, quando se levantava, quando enxugava os cabelos, quando acariciava com espuma o umbigo, os bicos dos peitos, as virilhas. Gritinhos, respiração diferente da respiração ordinária.

Agora estava provavelmente imóvel. Esses gestos não lhe dariam nenhum prazer. As cantigas truncadas não lhe dariam nenhum prazer. Talvez nem olhasse a barriga e os peitos, que doíam e se deformavam. Todo o corpo era um instrumento de desgosto. O pé da barriga endurecido, uma coisa apertando-lhe a cabeça como esses aparelhos de suplício que usam no sertão, feitos de pau e corda. Os pauzinhos torciam-se, a corda penetrava na carne, os ossos estalavam, os miolos queimavam. Eu sentia raiva, aborrecimento, piedade e nojo. E cuspia, como Marina. Aquela imobilidade e aquele choro me afligiam. Por que não se molhava, não passava uma hora debaixo da torneira, esfregando-se, ensaboando-se? Fungava; provavelmente as lágrimas se misturavam com restos de pó de arroz e poeira; o suor lustrava-lhe a pele e produzia coceiras nos sovacos; a moleza do sono amorrinhava-lhe o corpo. Estava suja e feia, precisando banho.

Houve umas pancadas na porta, o choro desapareceu. O meu banheiro tornou-se vazio. Agucei o ouvido, arregacei as narinas: apenas o cheiro desagradável da água que escapava da sarjeta e se estagnava numa poça, a parolagem do Currupaco, que arengava com outros Currupacos invisíveis. Novas pancadas na porta e a voz de d. Adélia:

“Marina!”

Marina abriu a torneira e entrou a lavar-se, cantando uma cantiga rouca, estrangulada, medonha. Mas as pancadas e a voz cresciam.

“Marina, abra a porta. Abra a porta, minha filha.”

Uma súplica zangada e arquejante que exigia grande esforço. Marina devia estar quase limpa. O suor, o catarro, a poeira, as lágrimas e as tintas rolavam no enxurro, e Marina era outra, vermelha, o espinhaço levantado, como um ano antes, quando havia surgido entre os canteiros, empinando-se, os cabelos pegando fogo. As visões do sono tinham-se dissipado.

“Marina!”

Marina continuava a cantar, a gritar, em grande espalhafato. Para que serviam as queixas e as exprobrações de d. Adélia? A água corria e se desperdiçava, abafando a voz aguda e trêmula. E Marina enxugava-se cantando com raiva.

“Abra, meu coração.”

O ferrolho correu, a porta se abriu de chofre e tornou a fechar-se. Estavam as duas cara a cara, num silêncio de atrapalhação. Sentei-me à beira do tanque, olhei o tijolo deslocado.

“Que latomia é essa?” perguntou d. Adélia com autoridade mole. “Creio em Deus Padre. Parece que morreu gente.”

Provavelmente d. Adélia conhecia mais ou menos o que tinha sucedido. Mas queria acreditar que não houvera infelicidade sem remédio, ou então, caso isto não fosse possível, botar os quartos de banda, lamentar-se e atirar a responsabilidade para o destino.

“Estou desconhecendo você. Que foi que houve?”

Aí o pranto de Marina rebentou novamente, enrolado com palavras ásperas que não entendi. D. Adélia baixou a pancada:

“Que horror, filha da minha alma! Santo Deus! Valha-me Nossa Senhora do Amparo.”

“Que Deus, que Nossa Senhora, que nada!” gritou Marina reduzindo a cacos as lamúrias e a religião da mãe. “De quem é a culpa? A senhora não sabia? Para que fingir que não sabia? A senhora sabia.”

Calaram-se, fungando.

“Criar uma filha tantos anos”, gemeu d. Adélia, “passar a vida sonhando com a felicidade dela, e de repente uma desgraça desta!”

“Pois sim”, disse Marina com um risinho. “Bonita criação. Está vendo?”

Tinha-se acalmado um pouco e podia falar, já não estava sozinha no mundo, urrando lamentações. Arremetia contra a mãe, arfando, grunhindo, como um bicho mal domesticado que quer morder:

“Coitadinha! Não via, não sabia. Tão inocente! Agora já sabe. Pois é. Escangalhada, com um filho na barriga. Não faça essa carinha de santa não. É o que lhe digo. Estou mentindo? Arrombada, com um moleque no bucho. Não quer ouvir não? Tape os ouvidos.”

“Cale a boca, Marina”, gaguejou d. Adélia tremendo. “Me respeite, Marina.”

Esta ordem bamba pareceu-me ridícula e despropositada, mas produziu um efeito que me espantou: Marina deitou água na fervura. Virei d. Adélia por todos os lados e não achei que ela fosse digna de respeito. Nem de respeito nem de ódio. Lembrei-me das referências do marido: “Com as flores de laranjeira na cabeça, dançava como carrapeta, olhava os homens sem baixar as pestanas. An! E eles se atrapalhavam”. Agora, aquela moleza, aquela confusão angustiada, o desejo de minguar, achatar­-se, a pisada macia do chinelo de corda, os modos lentos e sutis de quem pega nas coisas às escondidas e tem medo de quebrá-las, de levar carão. Nada disso podia inspirar respeito. Toda ela era uma desgraça arrastada e oblíqua, destinada a suportar grosserias e repelões. Quando o homem da casa vinha receber o aluguel atrasado, gritava: “Boto-lhe os troços na rua”. Seu Ramalho brigava por causa das cuecas sem botões. Coitada! Ela era uma só para tanto trabalho! D. Rosália escarnecia dela: “A senhora não se aperta. Tem quem lhe dê tudo”. D. Adélia torcia as mãos, engolia em seco. Julião Tavares dirigia-lhe graçolas pesadas, aquele cachorro. D. Adélia baixava a cabeça. Apenas um grunhido de reprovação, quase imperceptível: “Hum! hum!”.

“Me respeite, Marina.”

Aquela ordem gaguejada nem era ordem: era um pedido assustado em voz de choro. Marina calou-se e entrou a soluçar. Tive o desejo de gritar através da parede estreita:

“A senhora não tem culpa de viver nesse estado, d. Adélia. A senhora não nasceu assim. Era corada, risonha, dançava como carrapeta, olhava os homens cara a cara, e os homens se desaprumavam. Seu marido impava de orgulho e fazia: ‘An!’. Depois transformaram a senhora nisso, d. Adélia. Um trapo, uma velha sem-vergonha. Qualquer caixeiro de bodega chega-lhe à porta e berra para dentro: ‘Mande pagar a conta, madama. O patrão está às cascas’. E a senhora sofre com isso, porque tem uns restos de dignidade e quer que a respeitem. Nunca se acaba a dignidade da gente, d. Adélia. A gente é molambo sujo de pus e rola nos monturos com outras porcarias, mas recorda-se do tempo em que estava na peça, antes de servir. D. Adélia se lembra das flores de laranjeira que lhe enfeitavam a cabeça bonita. Tantas esperanças! Hoje é essa miséria que se vê. Fizeram da senhora uma bola de bilhar, uma coisa que vai para onde a empurram. Entretanto a senhora dançava como carrapeta, e seu Ramalho estava contente.”

Marina continuava a chorar. D. Adélia queixava-se baixinho. Eu tinha vontade de chorar também, condoía-me da sorte das duas mulheres e da minha própria sorte.