Quem poderia eu encontrar que me reconciliasse contigo? Deveria eu recorrer aos anjos? E com que orações, com que ritos? Muitos que se esforçavam para voltar a ti, não o podendo por si mesmos, tentaram este caminho, segundo ouço dizer, e caíram na curiosidade de visões estranhas, sendo por isso justamente punidos pelas ilusões. Orgulhosos, eles te procuravam com a jactância de sua doutrina, estufando o peito em vez de nele bater. E atraíram para si, pela semelhança de seus sentimentos, as potestades do ar, que se fizeram cúmplices e companheiras de sua soberba, e pelas quais foram enganados por meio de poderes mágicos. Estavam à procura de um mediador para purificá-los, mas não o encontraram, senão a um demônio, transfigurado em anjo de luz. E por não possuir corpo de carne, seduziu sobremaneira a carne orgulhosa. Eram eles mortais e pecadores; tu, porém, Senhor, com quem procuravam soberbamente reconciliar-se, és imortal e sem pecado. Era necessário ao mediador entre Deus e os homens alguma semelhança com Deus e alguma semelhança com os homens; não se assemelhando senão aos homens, estaria muito longe de Deus; não se assemelhando senão a Deus, estaria muito longe dos homens, e em ambos os casos não poderia ser mediador. Mas esse falaz mediador, pelo qual, por teus juízos secretos, a soberba merecia ser iludida, não tem de comum com os homens senão uma coisa, isto é, o pecado. Ele bem gostaria de parecer ter algum traço comum com Deus; e por isso, como não está revestido de carne mortal, pretende ser imortal. Mas, como a morte é o salário do pecado, ele tem de comum com os homens o que o faz condenar, como eles, à morte.
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