Onde não me acompanhaste em minha caminhada, ó Verdade, ensinando-me o que eu devia evitar ou procurar, enquanto eu te consultava, submetendo a ti, quanto pude, as coisas inferiores que via? Percorri com meus sentidos, como me pude, o mundo exterior. Observei a vida que meu corpo recebe de mim e os próprios sentidos. Depois penetrei pelos ocultos labirintos da memória em seus múltiplos domínios, tão maravilhosamente cheios de inúmeras riquezas; considerei tudo isso e fiquei estupefato. Sem teu socorro nada poderia distinguir, mas reconheci que nada disto eras. Explorei todas essas coisas, fiz todos os esforços para distinguir cada uma delas e para estimá-las em seu devido valor, recebendo umas pelo testemunho dos sentidos e interrogando-as, e sentindo outras unidas a mim, examinando, enumerando os sentidos, esses mensageiros, e nas vastas reservas da memória analisando certas lembranças, encerrando umas e retirando outras. Mas nem eu mesmo, que tudo isso fazia — isto é, a força com que o fazia —, era tu. Porque és a luz permanente que eu consultava sobre todas essas coisas para saber se elas existiam, o que eram, o que valiam, e eu ouvia tuas lições e tuas ordens. Costumo fazê-lo muitas vezes; essa é a minha alegria, e, na medida em que minhas ocupações me permitem algum lazer, refugio-me nesse prazer. Em todas essas coisas que percorro consultando-te não encontro segurança para minha alma senão em ti: tu és o lugar onde se recolhe o que há em mim de disperso, para que nada de mim se aparte de ti. E às vezes me fazes entrar, no íntimo, num sentimento muito fora do comum, numa doçura misteriosa, que, se em mim chegar à plenitude, será não sei o quê que não será esta vida. Mas torno a cair nestas coisas, sob o peso de minhas misérias; sou de novo tragado pelos hábitos, que me retêm, e choro muito, mas muito continuo preso. Tão grande é o fardo do hábito! Aqui posso estar, mas não quero; ali quero estar, mas não posso: infeliz em ambos!
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