Os prazeres do ouvido me haviam enredado e subjugado com mais força, mas tu me desligaste, me libertaste. Agradam-me ainda um pouco, eu o confesso, os sons que tuas palavras animam, quando cantados por voz suave e artística, sem todavia me deixar prender por eles, guardando minha liberdade para me levantar quando quero. Para serem admitidos em mim, juntamente com os pensamentos que lhes dão vida, procuram em meu coração um lugar digno deles, mas eu sinto dificuldade para encontrar lugar que lhes seja conveniente. Às vezes julgo dar-lhes mais honra do que devia: sinto que essas palavras santas, acompanhadas de canto, me inflamam de piedade mais religiosa e mais ardente do que se fossem cantadas de outro modo. É que todas as emoções de nossa alma, de acordo com suas características diversas, têm seu modo de expressão próprio na voz e no canto, que, por não sei que secreta afinidade, os estimula. Mas o prazer dos sentidos, pelo qual a alma não se deve deixar enervar, muitas vezes me engana: a sensação não se limita a acompanhar a razão, seguindo-a modestamente; mas só porque, graças à razão, foi admitida, procura precedê-la e conduzi-la. É nisso que peco sem o sentir, embora o advirta depois.
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