E que acontece quando a própria memória perde uma lembrança, como ocorre quando nos esquecemos de alguma coisa e procuramos recordá-la? Onde, enfim, a buscamos, senão na própria memória? E se ela, por casualidade, nos oferece uma coisa por outra, a repelimos até que apareça a que estamos buscando. E quando aparece dizemos “É isto!” — o que não diríamos se não a reconhecêssemos, nem a reconheceríamos se não nos lembrássemos dela. É certo, portanto, que já a havíamos esquecido. Ou será que ela não saiu inteiramente de nossa memória, e nos servimos da parte que nos ficou impressa para procurar a outra? A memória, nessa hipótese, teria consciência de não poder, como de ordinário, descrever a lembrança em seu conjunto, e, truncada em seus hábitos, e como a coxear, reclamaria a parte que lhe faltava. É o que acontece quando vemos uma pessoa conhecida, ou quando pensamos nela sem poder recordar-lhe o nome. Nós o procuramos, e se um outro nome se nos apresenta ao espírito, ele não se associa à ideia da pessoa, porque não temos o costume de associá-los em nosso pensamento; por isso o afastamos, até que se apresenta um que consiga a adesão total de nossa representação costumeira da pessoa. Mas donde nos vem este nome, senão da própria memória? Mesmo quando nos lembrarmos dele por intermédio de outrem, é pela memória que o reconhecemos. Porque não o aceitamos como um conhecimento novo, mas, recordando-o, aprovamos ser esse o nome que nos disseram. Se se apagasse completamente da alma, nem mesmo avisados o recordaríamos. Não se pode, pois, dizer que nos esquecemos totalmente daquilo de que nos lembramos ter esquecido. De nenhum modo poderíamos procurar uma lembrança perdida se seu esquecimento fosse absoluto.
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