Essa mesma memória conserva também os estados afetivos da alma, não do modo como estão na alma quando os experimenta, mas de outro modo muito diverso, segundo o exige a força da memória. Lembro-me de ter estado alegre, sem que o esteja de novo; recordo minha tristeza passada, sem estar triste; lembro-me de ter sentido medo, sem senti-lo de novo; lembro-me de ter cobiçado outrora, sem que o mesmo aconteça agora. Outras vezes, pelo contrário, lembro-me com alegria de minha tristeza passada, e com tristeza da alegria que experimentei. Isto nada teria de estranho se se tratasse do corpo, porque uma coisa é a alma e outra, o corpo; assim, não é tão admirável que me alegre com a lembrança de um sofrimento físico já passado. Aqui, porém, a própria alma é também memória: quando recomendamos que algo seja guardado, dizemos: “Cuida de tê-lo em mente”; e, quando esquecemos, dizemos: “Não estava em minha mente” ou “escapou-me da mente”, chamando assim a própria memória de mente. Sendo assim, por que, quando me recordo com alegria de uma tristeza passada, minha alma contém alegria e minha memória, tristeza, de modo que a alma se alegra com a alegria que tem em si, enquanto a memória não se entristece com a tristeza que também tem em si? Acaso a memória não pertence à alma? Quem ousaria afirmá-lo? Sem dúvida a memória é como o estômago da alma, e a alegria e a tristeza, como um manjar, doce ou amargo; quando esses sentimentos são confiados à memória, depois de passarem de algum modo por esse estômago, podem ali ser guardados, mas já perderam o sabor. Seria ridículo pensar que essas coisas se assemelham. Contudo, elas não são de todo dessemelhantes.
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