Mas quando ouço dizer que há três gêneros de questões, a saber: se uma coisa existe, qual a sua natureza e qual a sua qualidade — retenho a imagem dos sons de que se compõem estas palavras, e sei que estes sons passaram pelo ar com ruído e já não existem. Mas as realidades significadas por estes sons, eu jamais as toquei com nenhum sentido do corpo, nem as vi em nenhuma parte fora de minha alma; nem o que depositei em minha memória são as suas imagens, mas as próprias realidades. Que me digam, se podem, por onde entraram em mim! Percorro em vão todas as portas de minha carne e não descubro por onde poderiam ter entrado. Com efeito, os olhos dizem: “Se são coloridas, fomos nós que as anunciamos.” Os ouvidos dizem: “Se eram sonoras, foram por nós reveladas.” As narinas dizem: “Se tinham cheiro, passaram por aqui.” O gosto diz: “Se não têm sabor, nada me perguntes.” E o tato declara: “Se não têm corpo, eu não as toquei, e se não as toquei, não poderia revelá-las.” De onde, então, e por onde entraram em minha memória? Não o sei. Pois, quando as aprendi, não dei crédito ao coração de outrem, mas reconheci-as no meu, e aprovei-as como verdadeiras; confiei-as ao meu coração como em depósito, de onde as posso tirar quando quiser. Ali estavam, pois, antes mesmo que eu as aprendesse, porém não na memória. E onde estavam então? E por que, ao serem nomeadas, eu as reconheci e disse “É assim mesmo, é verdade”, senão porque já estavam em minha memória, mas tão escondidas e sepultadas em tão secretos abismos que, se alguém não as arrancasse dali com suas perguntas, talvez eu nem pudesse concebê-las?
Remover destaque