Mas eu então julgava de outra maneira. Não considerava meu Senhor Jesus Cristo mais que um homem de extraordinária sabedoria, a quem ninguém pode igualar. Sobretudo, por ter nascido milagrosamente de uma virgem, dando exemplo de como desprezar os bens temporais em troca da imortalidade, parecia-me ter merecido, pelo cuidado divino para conosco, tão grande autoridade de mestre. Mas o mistério que se encerra nestas palavras: “O Verbo se fez carne”, eu nem sequer podia suspeitar. Somente conhecia, pelas coisas que dele nos deixaram escritas, que comeu, bebeu, dormiu, passeou, que se alegrou, se entristeceu e pregou, e que essa carne só se uniu a teu Verbo juntamente com uma alma e uma mente humanas. Tudo isso sabe o que conhece a imutabilidade de teu Verbo, que eu já conhecia, quanto me era possível, sem que duvidasse um ponto sequer disso. Com efeito, mover os membros do corpo à vontade, ou não movê-los, estar dominado por algum afeto ou não o estar, traduzir por palavras sábios pensamentos, e depois calar, são caracteres próprios da mutabilidade de uma alma e de uma inteligência. Se esses testemunhos das Escrituras fossem falsos, tudo o mais correria o risco de ser mentira, e o gênero humano não teria mais nesses livros a fé, condição de salvação. Mas como são verdadeiras as coisas nelas escritas, eu reconhecia em Cristo um homem completo, não somente o corpo de um homem, ou um corpo e uma alma sem inteligência, mas um homem verdadeiro, que eu julgava superior a todos os outros não por ser a pessoa da verdade, mas em razão de uma extraordinária excelência de sua natureza humana, e de uma mais perfeita participação quanto à sabedoria. Quanto a Alípio, pensava que os católicos, crendo em um Deus revestido de carne, entendiam que em Cristo, além de Deus e da carne, não havia alma; e não julgava que lhe atribuíssem inteligência humana. E como estava bem persuadido de que os atos atribuídos tradicionalmente a Cristo não podiam ser senão obras de uma criatura dotada de vida e de razão, esse era o motivo pelo qual Alípio se aproximava tão preguiçosamente da fé cristã. Mas quando depois soube que este erro era próprio dos hereges apolinaristas, aderiu alegremente à fé católica. Eu, porém, confesso que só aprendi mais tarde a diferença existente quanto à interpretação das palavras o “Verbo se fez carne”, entre a verdade católica e o erro de Fotino. A reprovação dos hereges põe em maior evidência o sentimento de tua Igreja e o que esta considera como doutrina sã. Porque foi preciso que houvesse também heresias, para que os provados se manifestassem entre os fracos.
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