Assim, pois, com o coração pesado, sem consciência clara de mim mesmo, considerava um perfeito nada tudo o que não se estendesse por determinado espaço, ou não se difundisse, ou não se juntasse, ou não se dilatasse, ou não assumisse ou pudesse assumir um desses estados. Era sobre as formas percorridas por meus olhos que se modelavam as imagens pelas quais andava meu espírito, e não via que a mesma faculdade com que formava essas imagens não era da mesma natureza que elas, não obstante não pudesse formá-las se ela não fosse por sua vez algo grande. E também a ti, vida de minha vida, te imaginava como um Ser imenso, penetrando, por todas as partes, através dos espaços infinitos, toda a massa do mundo, alastrando-se sem limites na imensidão, de sorte que a terra, o céu e todas as coisas te continham, e tudo isso tinha em ti seu limite, sem que te limitasses em parte alguma. Mas assim como a massa do ar — deste ar que está sobre a terra — não impede que a luz do Sol passe através dele, penetrando-o sem o romper nem cortar, mas enchendo-o totalmente, assim eu pensava que não somente o corpo do céu, do ar e do mar, mas também o da terra, se deixava atravessar e penetrar por ti em todas as suas partes, grandes e pequenas, para receber tua presença, que, com secreta inspiração, governa interior e exteriormente tudo o que criaste. Assim conjecturava eu, por não poder imaginar outra coisa; mas minha hipótese era falsa. Porque, se fosse assim, uma parte maior da terra conteria maior parte de ti; e uma parte menor da terra conteria uma parte menor. E de tal modo estariam as coisas cheias de ti, que o corpo de um elefante conteria mais de ti do que o de um pardal, por ser maior do que ele e ocupar mais espaço. Assim, fragmentado entre as partes do Universo, estarias presente nas grandes partes do Universo por grandes partes de ti, e nas pequenas por pequenas. Mas tu não és assim. E ainda não tinhas iluminado minhas trevas.
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