Alípio admirava-se de que eu, a quem tanto estimava, estivesse tão preso ao visco do prazer, a ponto de afirmar, todas as vezes que tratávamos desse assunto, que eu não podia de modo algum levar vida casta. Para me defender ante sua admiração, dizia-lhe que havia muita diferença entre sua rápida e furtiva experiência do prazer, de que apenas se lembrava, e que, pela mesma razão, podia desprezar facilmente, e as delícias de uma ligação como a minha, à qual, se juntasse o honesto nome de matrimônio, já não deveria admirar-se de que eu não pudesse desprezar aquela vida. Alípio também começou a desejar o matrimônio, não certamente vencido pelo apetite do prazer, mas pela curiosidade. Desejava saber, dizia ele, o que era aquele bem, sem o qual minha vida — que ele tanto apreciava — não me parecia vida, mas tormento. Com efeito, livre desse vínculo, sua alma pasmava de tal servidão, e do espanto passava ao desejo de experimentá-la, para depois talvez cair naquela mesma escravidão que ele estranhava, pois queria fazer um pacto com a morte, e o que ama o perigo nele cairá. Certamente que nem ele nem eu dávamos muita importância ao que há de decoroso ou honesto no matrimônio, como a direção da família e a educação dos filhos. Mas o que me mantinha cativo e me atormentava violentamente era o hábito de saciar minha insaciável concupiscência, e a ele era a admiração que o arrastava para o mesmo cativeiro. Assim éramos, Senhor, até que tu, ó Altíssimo, que não desamparas o nosso barro, compadecido, por modos maravilhosos e ocultos, vieste em socorro destes infelizes.
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