Por isso, quando reconheci sua ignorância naquelas artes em que eu o julgava mui avantajado, comecei a desesperar de que me pudesse esclarecer e resolver as dificuldades que me preocupavam. É verdade que podia ignorar tais coisas e possuir a verdadeira piedade, contanto que não fosse maniqueu, porque seus livros estão cheios de fábulas intermináveis acerca do céu e dos astros, do Sol e da Lua, as quais eu já não esperava que mas pudesse explicar tão sutilmente como eu o desejava, cotejando-as com os cálculos matemáticos que eu lera em outras partes, para ver se deveria preferir o que diziam os livros de Manés, ou se, pelo menos, estes apresentavam demonstrações de igual valor. Mas, quando apresentei minhas dificuldades à sua consideração e crítica, ele, com toda a modéstia, não se atreveu a tomar sobre si tal encargo, pois certamente sabia que ignorava o assunto, e não se envergonhava de confessá-lo. Não pertencia ao número daquela classe de charlatães que me vi obrigado a suportar, que pretendiam ensinar-me tais coisas, mas não me diziam nada. Este, pelo menos, tinha coração, se não dirigido a ti, pelo menos não demasiado incauto com referência a si próprio. Não ignorava totalmente sua ignorância, razão pela qual não quis meter-se temerariamente em questões de onde não pudesse sair, ou de mui difícil retirada. Por isso mesmo agradou-me muito mais, por ser a modéstia de uma alma que se confessa muito mais bela que aquelas coisas que eu desejava conhecer, e em todas as questões mais difíceis e sutis o achei sempre igual.
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