E como explicar que, contando-me minha mãe esta visão, e querendo-a eu persuadir de que significava o contrário, e que não devia desesperar de ser algum dia o que eu então era, ela, sem nenhuma hesitação, me respondeu: “Não; não me foi dito: onde ele está ali estás tu, mas onde tu estás ali está ele”? Confesso, Senhor, e muitas vezes disse que, pelo que me recordo, me comoveu mais esta tua resposta, dada por minha mãe vigilante — que não se perturbou diante de interpretação falsa tão verossímil, e tão depressa viu o que se devia ver, o que eu certamente não tinha visto antes que ela o dissesse — do que o próprio sonho com o qual anunciaste a esta piedosa mulher com tanta antecedência, a fim de consolá-la em sua aflição presente, uma alegria que não havia de se realizar senão muito tempo depois. Seguiram-se, efetivamente, quase nove anos, durante os quais continuei a me revolver naquele abismo de lodo e trevas de erro, afundando-me tanto mais quanto mais esforços fazia para me libertar. Entretanto, aquela piedosa viúva, casta e sóbria como as que tu amas, já um pouco mais alegre com a esperança, porém não menos solícita em suas lágrimas e gemidos, não cessava de chorar por mim em tua presença em todas as horas de suas orações; e suas preces eram aceitas a teus olhos, mas deixavas-me ainda revolver-me e envolver-me naquela escuridão.
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