O mesmo se deve dizer dos crimes cometidos por desejo de causar danos, quer por afronta, quer por injúria; e ambas as coisas, ou por desejo de vingança, como ocorre entre inimigos, ou para alcançar alguma vantagem alheia, como o ladrão que rouba o viajante; ou para evitar algum mal, como se faz àquele que se teme; ou por inveja, como o mais infeliz inveja o mais feliz, ou como o que prosperou em algo teme que outro se lhe iguale, ou se doí de que já seja igual; ou unicamente pelo prazer do mal alheio, como os espectadores dos gladiadores, ou os que zombam e escarnecem de qualquer um. Essas são as cabeças ou fontes de iniquidade, que nascem da paixão de mandar, de ver ou de sentir, quer de uma só dessas paixões, ou de duas, ou de todas juntas, razão por que se vive mal, ó Deus altíssimo e dulcíssimo, contra os três e sete, o saltério de dez cordas, teu decálogo. Mas que pecado pode atingir a ti, que não és atingido pela corrupção? Ou que crimes podem cometer-se contra ti, a quem ninguém pode causar dano? Mas o que vingas são os crimes que os homens cometem contra si, porque, mesmo quando pecam contra ti, agem impiamente contra suas almas, e sua iniquidade mente a si própria, ou corrompendo e pervertendo sua natureza — feita e ordenada por ti — ou usando imoderadamente das coisas permitidas, ou ardendo por coisas não permitidas, para aquele uso que é contra a natureza. Também se fazem réus dos mesmos crimes os que com o pensamento e a palavra se enfurecem contra ti, dando coices contra o aguilhão, ou quando, quebrados os freios da sociedade humana, alegram-se, audazes, com as facções ou desuniões, de acordo com suas simpatias ou antipatias. E tudo isso se faz quando és abandonado, fonte da vida, único e verdadeiro criador e senhor do universo, e com orgulho egoísta ama-se uma parte do todo como se fosse o todo. Essa é a razão pela qual só se pode voltar para ti com piedade humilde, e assim nos purificas dos maus costumes, e te mostras propício com os pecados dos que te confessam, e ouves os gemidos dos cativos, e nos livras dos grilhões que nós mesmos forjamos, contanto que não ergamos contra ti os chifres de uma falsa liberdade, por avareza de ter mais — com o dano de perder o todo —, amando mais o nosso bem próprio do que a ti, bem de todas as coisas.
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