Mas minha infância já morreu há tempo, apesar de eu continuar vivo. Tu, porém, Senhor, que sempre vives, e em quem nada morre — porque antes dos primórdios dos séculos, e antes de tudo aquilo a que sequer se pode chamar “antes”, tu existes, e és Deus e Senhor de todas as coisas que criaste, e em ti estão firmes as causas de tudo o que é instável, e em ti permanecem os princípios imutáveis de tudo o que se transforma, e vivem as razões sempiternas de todas as coisas irracionais e temporais — dize-me a mim, eu te suplico, ó meu Deus, dize-me, misericordioso, a mim que sou miserável, dize-me: porventura essa minha infância sucedeu a outra idade minha, já morta? Será essa aquela que vivi no ventre de minha mãe? Porque também desta me deram algumas indicações, e eu mesmo já vi mulheres grávidas. E antes desse tempo, minha doçura e meu Deus, que era eu? Estive em algum lugar, ou era alguém? Dize-mo, porque não tenho quem me responda, nem meu pai, nem minha mãe, nem a experiência de outros, nem minha memória. Acaso te ris de mim, porque desejo saber estas coisas, e me mandas que te louve e te confesse pelo que conheci de ti?
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