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Deixa, porém, que eu fale em presença de tua misericórdia, a mim, terra e cinza; deixa que eu fale, porque é à tua misericórdia, e não ao homem que de mim se ri, que eu falo. Talvez também tu te rias de mim, mas, voltado para mim, terás compaixão. E que pretendo dizer-te, Senhor meu Deus, senão que não sei de onde vim aqui — a esta vida mortal, ou a esta morte vital? Não sei. Mas receberam-me os consolos de tuas misericórdias, de acordo com o que ouvi de meus pais carnais, de quem e em quem me formaste no tempo, pois eu de mim nada recordo. Receberam-me, digo, os consolos do leite humano, do qual nem minha mãe, nem minhas amas enchiam os seios; mas eras tu que, por meio delas, me davas aquele alimento da infância, de acordo com tua ordem, e segundo os tesouros dispostos por ti até no mais íntimo das coisas. Também me davas tu que eu não quisesse mais do que me davas, e que minhas amas quisessem dar-me o que tu lhes davas, pois elas, movidas de afeto bem ordenado, queriam dar-me aquilo de que por ti abundavam, já que era um bem para elas receber eu delas aquele bem, embora, realmente, não viesse delas, mas por meio delas, porque de ti procedem, com certeza, todos os bens, ó Deus, e de ti, Deus meu, depende toda minha salvação. Tudo isto vim a saber mais tarde, quando me clamavas por meio dos mesmos bens que me concedes interior e exteriormente. Porque então a única coisa que eu sabia era mamar, aquietar-me com os afagos, chorar as dores de minha carne, e nada mais.

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