Antes de tudo, é preciso prestar atenção a esse ex, que parece caracterizar a existência, mas pode ser enganoso e nos levar a pensar que toda existência possui um caráter de exterioridade em relação à consciência, como se tivesse por modelo esse monstro contraditório: uma coisa desprovida de toda interioridade e que pudesse ser posta em si independentemente de uma consciência que a apreendesse. Mas o ex da existência orienta nosso pensamento numa direção inteiramente diferente. A existência é aquilo que surge do próprio ser como um de seus modos e nele conquista uma independência ao menos relativa. Só que, assim como o próprio ser não é o objeto absoluto, mas, ao contrário, a interioridade absoluta, esse modo que surge no próprio ser não perde o caráter pelo qual participa dele: sua interioridade própria. Isso basta para explicar por que a existência só pode ser a descoberta de si pela qual o sujeito se constitui. É a constituição de um ser capaz de dizer “mim” ou “eu”. Compreendemos, então, que não há outra maneira de apreender a existência senão em minha própria existência, com a qual coincido e fora da qual, para mim, só há objetos ou fenômenos. Nela, a distinção entre o ser e o conhecer é transcendida. Só que, nessa identidade entre os dois termos, não se trata de reabsorver o ser no conhecer, mas, ao contrário, de reabsorver o conhecer no ser, ou de fazer o próprio ser do sujeito consistir no ato pelo qual o ser conhece a si mesmo. Esse é, sem dúvida, o sentido que devemos dar ao Cogito cartesiano.
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