Ideal
Parágrafo 90
Explica-se assim por que, quando se considera a ideia como um objeto de conhecimento, e o ideal como um objeto do querer, se pode pensar que a ideia é, por si mesma, indiferente ao valor, ao passo que o ideal sempre o envolve. Surge, assim, a tentação de definir a ideia como sendo uma realidade — mas para o espírito puro (e não para os sentidos). É assim que, em certa interpretação do platonismo, se fará da ideia uma espécie de coisa transcendente a todas as que vemos. Mas não há coisas para o espírito; ele nada conhece além de suas próprias operações; não há, para ele, outra realidade. E cada uma de suas operações é uma razão de ser «em ação», um valor que se atualiza. Equivale a dizer que não há ideia que não seja um ideal. Mas não deixa de ser verdade que a ideia sempre parece poder desprender-se da consciência que a contempla — ao passo que o ideal não pode ser contemplado: ele só está ali onde é posto em prática, ali onde é vivido. Tal é a razão pela qual, se Kant declara que a palavra ideal não deve ser empregada para designar a ideia enquanto puro objeto de conhecimento (ao passo que mostramos, ao contrário, que não há ideia que não interesse uma atividade em exercício e que, por conseguinte, não assuma, em relação a ela, a forma de um ideal), ele acrescenta, muito profundamente, que ela não pode designar nada mais do que a perfeição realizada — a saber, o sábio ou Deus. Todavia, a expressão «realizada» aqui não deve induzir-nos em erro. Pois trata-se apenas de uma perfeição que se realiza em um ato que nunca se interrompe e que, somente a esse título, pode, por conseguinte, servir de modelo a todas as consciências; ao passo que a realidade que consideramos até aqui — e à qual sem cessar opomos o ideal — é um cumprido e não um cumprimento, um dado e de modo algum um dom — de modo que, ao desprender-se do ato mesmo que lhe dá nascimento, ela testemunha, por isso mesmo, sua imperfeição, isto é, sua falta em relação a esse ideal do qual ela parece então, com efeito, ser apenas a negação.