Valor
Parágrafo 77
Daí também a relação que o valor mantém com o tempo. Pois parece que o valor esteja, ele mesmo, para além do tempo, na medida em que exprime uma referência do pensamento ao bem que buscamos encarnar no tempo, sem nunca consegui-lo inteiramente; assim, o valor tampouco pode ter lugar no tempo: nunca conseguimos fixá-lo nem captá-lo. E, contudo, ele só tem sentido em relação a uma encarnação eventual — e é porque nenhuma encarnação consegue contê-lo que ele sempre exige alguma encarnação nova. Ele é o que deve ser realizado, mas que nunca pode acabar de sê-lo. Daí resulta não apenas que ele está sempre em relação com o tempo no qual deve produzir-se essa encarnação, mas, ainda, que o tempo mede, por assim dizer, as etapas sucessivas pelas quais ele se realiza. Há mais: uma vez que a existência reside sempre na atualização de uma possibilidade, e que essa atualização só pode produzir-se no tempo, o valor que a justifica só se realiza, ele mesmo, por graus. E, como a realidade — tal como é dada — oferece sempre uma resistência ao valor, que é, ele mesmo, um retorno ao ato do qual procedem todos os dados, mas que nos obriga sem cessar a ultrapassá-los, o valor, por sua vez, aparecerá sempre como solidário de um esforço. Se o valor deve ter lugar em uma experiência que é sempre espaço-temporal, o espaço representa suficientemente bem o obstáculo que se lhe opõe, mas através do qual é preciso que ele se manifeste e abra caminho; e o tempo, o caminho que ele deve tomar a fim de prosseguir sua realização. Mas esse caminho deve ser galgado, e é por isso que falamos legitimamente de uma escala de valores, considerando ainda menos o valor em si mesmo do que os graus de sua efetivação. Pois observa-se aqui a mesma ambiguidade que sempre acompanha o valor, enquanto este é inseparável da participação, e que faz com que, considerado em si mesmo e em sua relação com o bem do qual é a exigência, ele exclua todo grau; ao passo que, em sua relação com a vontade que o realiza, e sem a qual não seria chamado de valor, ele comporta uma sequência de fases que são, uma em relação à outra, como os momentos de um progresso contínuo, que devem ser atravessados alternadamente.