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Introdução à ontologia · Segunda parte / Valor

Valor

Parágrafo 76

A diferença e a relação entre o bem e o valor aparecem claramente quando se observa que se fala quase sempre da ideia do bem, ao passo que se deve dizer o juízo de valor. Diz-se a ideia do bem, e não o conceito do bem — pois o bem não pode ser apenas uma noção abstrata, extraída de uma comparação entre as diferentes espécies de bem. Ele é, em relação à ação boa, ao mesmo tempo, a origem da qual ela procede e o fim para o qual ela tende: é também o critério que permite julgá-la. Ora, tais são os caracteres que pertencem propriamente à ideia. Acrescentemos que nenhum bem particular e realizado esgota a riqueza infinita da ideia do bem. É ela que, ao mesmo tempo, por sua virtude dinâmica, permite a cada ser assegurar o desenvolvimento interior pelo qual realiza sua própria essência. Ela é, no próprio ser, o fermento vivo que o anima, que o obriga a querer-se e a querer todos os seres que dele participam. Mas, se, no absoluto, o ser e o bem se confundem, eles se dissociam assim que a participação começa, e para que ela seja possível: o que permite à existência adquirir valor, contanto que tome o bem por fim. Por isso, o bem é, para ela, apenas uma ideia. E é porque está acima da existência que nos vimos conduzidos seja a pôr o bem acima do ser, seja a identificar o ser à própria ideia. — Mas dizemos o juízo de valor, o que é fácil de compreender, se o que caracteriza o juízo é sempre subsumir uma forma qualquer da realidade sob uma ideia. Ora, uma vez que o valor só intervém com a existência participada, reconhecer que uma coisa tem valor é, na realidade, subsumi-la sob a ideia do bem; mas, para isso, é preciso que tenhamos distinguido a coisa do valor da coisa — o que só é possível graças à participação, e exige o juízo como a operação mesma que as põe, em seguida, em relação uma com a outra. Isso mostra que o juízo de valor não enuncia caráter algum que pertença à coisa mesma — e tampouco a determina ou a enriquece —, pois o valor exprime, na coisa mesma, sua interioridade — isto é, sua ligação secreta com o ser enquanto este se quer a si mesmo como bem; assim, o valor de uma coisa só tem sentido para a consciência na medida em que esta se interessa por ela por um ato de vontade, e não simplesmente por um ato de conhecimento. O bem está para além de todos os juízos de valor, mas é o princípio deles. Em contrapartida, todos os juízos de valor exprimem uma relação que supõe sempre uma comparação — e mesmo uma dupla comparação: por um lado, dos valores entre si, e, por outro, de cada um deles com o bem do qual todos procedem.

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