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Introdução à ontologia · Segunda parte / Valor

Valor

Parágrafo 74

Mas não basta ater-se à proposição de que o valor está para a existência assim como o bem está para o ser. Pois, apesar da estreita correlação entre o ser e o bem, fora preciso, contudo, distingui-los, mostrando que o bem é o ser enquanto querido — é, no próprio absoluto, o que o torna digno de ser querido, isto é, digno de ser. Mas a correlação entre o valor e a existência não é exatamente simétrica; pois, se é impossível que, em um absoluto que é causa de si, o ser e o bem possam ser separados, o mesmo não se dá no que diz respeito à existência e ao valor. Pois o que caracteriza a existência é participar apenas do ser — de modo que, se ela recebe dele o poder de nele participar, dispõe, contudo, de iniciativa própria pela qual, tornando-se, por sua vez, causa de si, pode desprender-se da finalidade que está no ser — isto é, do bem do qual o próprio ser não pode ser dissociado — e perseguir um fim que ela mesma terá escolhido, que a tornará independente do bem, isto é, do ser enquanto querido, ou mesmo voltar-se contra ele. A partir daí, se é impossível aceitar a tese que considera o ser como indiferente ao bem, definindo-o como capaz de receber, ao mesmo tempo, o bem e o mal, já não é assim no que concerne à existência — pois a participação lhe confere, precisamente, um caráter de ambiguidade; ou, ainda, a liberdade pela qual a participação se realiza só tem sentido por essa ambiguidade mesma. Reencontramos aqui essa oposição relativa entre o bem e o mal, que supõe, por sua vez, um bem absoluto, ele mesmo sem contrário, e do qual ela exprime a divisão, ao introduzir a ideia de um bem determinado, que, este sim, pode ser negado (negação que só é possível quando se evoca a indeterminação mesma do ser, enquanto esta é utilizada para arruinar essa determinação particular, e não para enriquecê-la — o que seria, sem dúvida, a única justificação concebível de todos os empreendimentos destrutivos). Contudo, no ponto em que estamos, não deixa de ser verdade que, se o bem é o ser enquanto é, para si mesmo, seu próprio fim, não se pode dizer o mesmo do valor em relação à existência. O que caracteriza a existência é, com efeito, promover o valor ou combatê-lo. Cabe então perguntar se há um valor da própria existência. Sobre este ponto, uma única resposta é possível: se o valor é o valor, e a existência é sua condição e seu veículo, a existência deve ser um valor condicional — pois, sem ela, não haveria valor. Mais ainda: é porque a existência só pode constituir-se por uma dissociação entre o ser e o bem que o ser está nela como participado, e o bem como participável. Ora, é o bem enquanto participável que é, justamente, o valor. É natural, portanto, considerar a existência como um valor — e mesmo como o valor supremo, na medida em que nos faz participar do ser, que faz um só com o bem, e em que ela traz em si a origem e a condição de possibilidade de todos os outros valores. Mas esses valores só são valores em relação a um ato que deve realizá-los e que, por conseguinte, empenha nossa responsabilidade própria — isto é, que pode tanto falhar em relação a eles quanto subvertê-los. É então que a existência nos parece estranha ao valor — não, é verdade, porque seja de outro domínio, mas porque, sendo geradora do valor, deve poder ser geradora também de seu contrário.

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