Valor
Parágrafo 72
Se remontarmos à ideia mesma que formamos da existência, vemos logo que ela exprime nosso próprio acesso ao ser, que não tem, como tal, objetividade alguma, mas designa um ato que cumprimos e pelo qual, no interior de uma situação que nos limita e que nos individualiza, cumprimos o ato mesmo que nos permite dizer eu. A existência é, pois, a consciência que tomamos de nossa liberdade enquanto está engajada em certas circunstâncias, em meio às quais ela é obrigada a exercer-se. Foi isso o que nos permitiu definir a existência como uma possibilidade real — mas uma possibilidade que, a cada instante, cabe a ela atualizar. Ora, essa definição nos mostra logo em que consiste a ideia de valor e como ela se distingue da ideia de bem. Pois, se o bem pode aparecer-nos como um objeto ou como um fim — ainda que resida na perfeição de um ato que só pode tornar-se nosso sob uma forma limitada e mesclada de passividade —, o valor, ao contrário, não é nem um objeto, nem um fim, nem um ato — embora seja o critério que, em todo objeto de nossa experiência, em todo fim de nossa vontade ou em toda ação que podemos cumprir, mede o apreço que dele podemos fazer, a relação entre os possíveis que ali se encontram envolvidos e o grau de atualização que somos capazes de lhes dar. Vale dizer que o valor não é o bem, mas que tem com o bem a mesma relação que a existência tem com o ser. Pois, do mesmo modo que a existência é o ser enquanto se encarna e se torna nosso, o valor é o bem enquanto se refere a um objeto do qual fazemos uso, a uma vontade que se esforça por atingi-lo. E, assim como a existência é o ser enquanto recebe uma forma interior e individual — embora a emprestemos também às coisas, na medida em que estão em correlação com a nossa —, o valor é o bem enquanto implica uma atividade que busca realizá-lo — ainda que possamos descobri-lo também no real, em toda parte em que ele simboliza o desígnio que tal atividade poderia ter a seu respeito.