Pular para o conteúdo

Introdução à ontologia · Segunda parte / Bem

Bem

Parágrafo 57

Parece que há simetria entre as duas noções de ser e de bem, e que, se o que caracteriza o ser é ser o objeto puro do pensamento — que se estende, de direito, a tudo o que pode ser pensado —, o que caracteriza o bem é ser o objeto puro da vontade — que se estende, de direito, a tudo o que pode ser querido. De fato, não se pode conceber um único objeto do pensamento que não esteja compreendido no ser, embora se possam atribuir-lhe as qualificações mais diferentes e considerá-lo, alternadamente, como sensível, inteligível, possível ou mesmo ilusório: mas é, então, o ser de uma possibilidade, ou o ser de uma ilusão. Do mesmo modo, não há um único objeto da vontade que não seja querido por ela como um bem, mesmo que esse bem possa receber as formas mais diferentes e permaneça sempre correlativo às intenções limitadas e muitas vezes enganosas que o determinam: pois, para que estas nos enganem, é preciso que haja um bem — ao menos em ideia — cuja imagem perseguem. Assim, há no bem, em relação à vontade, a mesma universalidade e a mesma univocidade que há no ser em relação ao intelecto. Não podemos propor-nos fim algum — mesmo o mais humilde — que não porte em si a marca do bem. E, por outro lado, o bem não envolve em si, indistintamente, todos os objetos do querer apenas na unidade de sua extensão; envolve-os também na unidade de sua compreensão. Do mesmo modo que o ser não é uma denominação abstrata, que se aplica de fora a modos fora dos quais não seria nada, mas compreende em si todos os seus modos — ou é, por assim dizer, o foco deles —, de modo que não se pode pôr o ser de um modo qualquer sem pôr sua relação com todos os outros (isto é, com a unidade comum de onde procedem com ele), do mesmo modo o bem também não é um caráter intrínseco que se acrescentaria a todos os objetos particulares do querer: mas a vontade não pode querer nada mais do que o bem, e é o mesmo bem que se reencontra e que ela busca atingir em cada uma de suas ações, sob uma forma limitada e dividida. O bem é querido por inteiro em toda parte em que a vontade é querente, ainda que ela jamais realize senão um aspecto dele — mas um aspecto que é, ele também, solidário a todos os outros e que os convoca.

Parágrafo 57 has loaded