Realidade
Parágrafo 43
Enfim, nunca esqueçamos que o que caracteriza a realidade é estar sempre em ato e ser sempre atual: sempre em ato, porque nada nela há que possa permanecer no estado de potência pura, como na existência — ao menos se a consideramos em si mesma, na disposição que dela se tem e independentemente de seu emprego —; e sempre atual, porque não pode ser distinguida do próprio universo, enquanto este nos é dado, isto é, presente. Assim, o porvir e o passado são, para nós, igualmente irreais: o porvir, porque é, no próprio ser, aquilo que a existência nele discerne por antecipação, para fazê-lo seu; o passado, porque é, não mais o real, mas o realizado, e já só subsiste na existência, que o porta em si e o evoca como seu próprio segredo. Dessa realidade, que está sempre em ato e é sempre atual, que não apenas nos põe diante do universo, mas nos dá nele um lugar por meio do corpo, pode-se dizer que tem como caráter distintivo a eficácia (a realidade e a eficácia são designadas, ao mesmo tempo, pelo mesmo termo de Wirklichkeit). É real tudo o que exerce sobre outra coisa uma ação que também é capaz de receber dela; ou, de maneira mais imediata e que nos aproxima mais de nós mesmos, tudo o que pode agir sobre nosso corpo ou sofrer sua ação, por sua vez. Ao passo que, por oposição, se o ser é um ato, é um ato inteiramente interior a si mesmo; e que, se a existência o transforma em possibilidade, é a ela ainda que cabe atualizar essa possibilidade, que não poderia sê-lo de outro modo.