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Introdução à ontologia · Primeira parte / Realidade

Realidade

Parágrafo 40

Mas se a realidade como tal não tem interioridade, se é apenas aquilo que se apresenta a um sujeito sob a forma de um «dado», será fácil compreender que ela não seja, para nós, nada mais do que uma aparência ou um fenômeno. Ora, dizer que ela é um objeto é dizer ainda a mesma coisa, pois o que caracteriza um objeto é ser apreendido por um sujeito como exterior a ele, mas, contudo, em relação com ele. Será preciso dizer, contudo, que a forma particular sob a qual um dado nos é oferecido é sempre a espacialidade? Não pode ser de outro modo, se a realidade, por definição, exclui a interioridade, se ela é aquilo que, na interioridade do todo, ultrapassa nossa interioridade própria e nunca pode, por nós, ser definido senão como uma exterioridade. O que basta para explicar dois caracteres da realidade que se consideram, com frequência, contraditórios — e dos quais agora compreendemos por que estão necessariamente associados:

O primeiro é que, se o espaço é, indivisivelmente, a forma da exterioridade e a forma da aparência, toda realidade que nos aparece no espaço só pode aparecer-nos por sua superfície (pois a superfície separa, precisamente, o que se mostra daquilo que está para além). Por isso, é preciso dizer que, por mais longe que possa penetrar nosso conhecimento, e quaisquer que sejam os meios mais sutis que utilize, ele virá sempre morrer sobre uma superfície, que poderá recuar indefinidamente, mas que será sempre a marca e a fronteira de seu poder. Atravessar toda fronteira não seria ir, na exterioridade, até o infinito — o que seria contraditório —, mas reencontrar a interioridade pura, que é ser e não realidade. Essa observação permite perceber por que toda realidade é, para nós, necessariamente superficial — o que se exprime igualmente bem, para quem percebe o sentido verdadeiro destas palavras, dizendo que ela é sempre a realidade de um objeto, ou de uma aparência, ou de um fenômeno.

Mas o segundo caráter da realidade — e que parece a negação do precedente — é que a realidade nos parece ter, por oposição ao conhecimento que dela tomamos, uma profundidade — ou, como muitas vezes se diz, uma espessura infinita. É que ela não deve ser apenas o fenômeno ou a aparência dada, mas todo fenômeno ou toda aparência que pode sê-lo. Tem, pois, em relação a tudo o que dela percebemos, um imenso pano de fundo. Cada progresso do conhecimento faz aparecer um aspecto novo da realidade, que só tem significação em relação à perspectiva nova através da qual o consideramos, ou aos instrumentos novos que utilizamos para fazê-lo surgir. Todos esses aspectos devem ser considerados igualmente verdadeiros. E quando creio poder distinguir a própria realidade de cada uma das aparências pelas quais ela se manifesta, posso bem dizer, como há pouco, que ela é a soma ou o foco delas. Mas é em cada uma das visões que podemos ter dela que a realidade, contudo, se realiza. Ela não subsiste sob uma forma independente: em si mesma, é apenas a possibilidade de todas. A espessura das coisas é, pois, uma espessura negativa, se a confrontamos com sua representação positiva, que está sempre em superfície. Enfim, não se deve esquecer que cada tipo de representação corresponde a um tipo particular de ação, pelo qual, precisamente, evoco e troco, sem cessar, todas as faces do mundo que assim, alternadamente, me aparecem.

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