Ser
Parágrafo 19
O ser é, pois, uma interioridade absoluta ou universal: o eu individual nela introduz uma limitação para além da qual reina uma exterioridade aparente, que ele procura vencer por graus; torna-se, assim, cada vez mais interior a si mesmo. Tal é o papel atribuído à existência. No ser, a existência ainda não surgiu. Mas, em relação a toda existência, o ser pode ser definido como um infinito de possibilidade do qual ela participa segundo a capacidade de sua natureza ou o grau de sua liberdade. Assim, observa-se nessa dupla relação do ser e da existência diante da possibilidade uma curiosa inversão: pois, se, situando-se no interior de toda existência, é o ser que se torna um possível, precisamente porque a ultrapassa (o que permite negá-lo ou fazer dele apenas uma existência em ideia), é preciso, ao contrário, que, situando-se no interior do ser, seja a existência a tornar-se um possível, o qual deve assumir o ser por um ato que lhe cabe cumprir e que lhe dá seu ser próprio (o que permite considerá-la como transitória e, talvez, como destinada a desaparecer, à medida que se realiza).