Ser
Parágrafo 11
Mas, se nem o atributo, pela necessidade de subordiná-lo ao sujeito, nem o sujeito, pela impossibilidade de defini-lo senão em função do atributo, conseguem exprimir o ser adequadamente, não será que o ser reside na cópula? De fato, a cópula, que traduz o ato mesmo da afirmação, deve ser coextensiva ao ser, isto é, a toda afirmação possível. É então o «é» da cópula que forma o vínculo entre todos os modos possíveis do ser. Todavia, essa concepção esbarra em duas objeções: a primeira é que a cópula não é essencial à proposição, e que nem toda afirmação pode ser reduzida à forma atributiva. Assim, pode-se substituir a cópula por um verbo ou por uma relação (como: é igual a, é causa de, em que o é não é cópula, mas elemento da relação); contudo, não se pode ignorar que, no verbo ou na relação, está implicada uma afirmação que recai sobre o ser mesmo da ação indicada pelo verbo, ou sobre o ser da relação. Lachelier chegava mesmo a dizer que o ser está presente em toda afirmação, sobretudo, talvez, onde ele não é expresso. O que se explica com facilidade, se observarmos que o juízo de atribuição pode não ir além do enunciado de uma definição conceitual, ao passo que um juízo de relação — sobretudo quando se trata de um verbo que designa uma ação — pode implicar imediatamente o ser mesmo dessa relação ou dessa ação. A segunda objeção recai sobre a distinção entre o ser da cópula e o verbo que afirma o ser. Quando digo A é, a afirmação termina no ser de A; quando digo A é B, já não se trata do ser de A, mas da impossibilidade de separar B de A pelo pensamento. Ainda assim, o «é» da cópula define, ao mesmo tempo, como seres de pensamento, A, B e o vínculo que os une. Ora, na concepção que agora procuramos dar do ser, é preciso dizer, por um lado, que o ser do pensamento é uma forma de ser que não pode ser oposta ao ser em geral, pois, ao contrário, ela o determina; e, por outro lado, que a afirmação A é e a afirmação A é B exprimem, uma e outra, dois graus de determinação do ser, já que a primeira consiste apenas em dizer que A faz parte do ser, e a segunda em dizer que, no ser, A não pode permanecer independente de B.