Capítulo XII. Os bens do espírito
8. Despossessão.
Nunca devemos buscar adquirir ou reter bem algum; pois somos sempre possuídos pelo objeto que possuímos: é o meio seguro de permanecer sempre pobre, invejoso e descontente. Mas é prescindindo de todos os bens, de todas as coisas possuídas, que poderemos adquirir o único bem verdadeiro, que é o poder de engendrar todos os bens, isto é, de tirá-los de nós mesmos. Pode-se surpreender que só se enriqueça aquele que se despoja de tudo o que possui. É que, até então, ele só possuíra bens miseráveis que o tornavam inquieto, opaco e pesado: basta abandoná-los para tornar-se uma potência pura, doravante capaz de participar de tudo o que é.
Todos os bens materiais nos oprimem e nos ofuscam. É que eles não podem nos dar o sentimento da posse verdadeira. Pois só possuímos a nós mesmos, e é por isso que o momento da privação mais rigorosa se torna o da mais perfeita plenitude.
O nosso espírito deve ser ainda mais desprendido dos bens intelectuais do que o corpo dos bens materiais; se ele só pode possuir a própria atividade que exerce, a única posse que pode ter em relação aos seus conhecimentos não é comprazer-se neles, mas produzi-los. Só possuímos o que pensamos no momento em que pensamos. Parece-nos que o que sabemos e de que nos lembramos é objeto de uma posse ao mesmo tempo mais aparente e mais segura; mas ela só produz uma satisfação análoga à que os bens materiais dão. Ora, a posse dos bens do espírito, como a de todos os verdadeiros bens, não se distingue da operação que os faz ser: quando dela se distingue, é que os perdemos.
Se é preciso tender a não ter posse alguma, a estar perfeitamente nus e despojados, é para não ser senão um ato que se realiza. Pois os únicos bens que têm valor são os que não podemos perder: são, portanto, os bens que carregamos em nós e que sempre levamos conosco; é a faculdade de produzi-los todos. Todos os outros nos tornam escravos e fazem pesar sobre nós o temor de que nos abandonem. Quando já não temos esse temor, é que os abandonamos para nos elevar acima deles. Assim, todas as nossas desgraças vêm de que buscamos fora de nós e longe de nós bens que estão perto de nós e em nós.
Quando se pede ao eu separado que renuncie a si mesmo em favor dessa graça que descrevemos, que faz descer nele o próprio princípio do conhecimento e do amor, esse eu deve sentir alegria e entusiasmo diante de uma tal promessa, já que sente que o seu ser está prestes a romper os seus limites e a se expandir indefinidamente. E, por outro lado, é inevitável que oponha a essa ação que o eleva uma resistência desesperada, já que sente que deve desaparecer, que deve ceder lugar a um outro ser que ainda não conhece, no qual o seu ser mais familiar será, por assim dizer, consumido: o pensamento da sua própria aniquilação lhe dá uma angústia inexprimível que ele precisa transformar numa “renúncia total e doce”.