Capítulo XII. Os bens do espírito
7. O estado de graça.
O importante não é não cair, mas ser capaz de elevar-se até certos cumes. O ser humano permanece hesitante e miserável, deixa-se atrair e decepcionar pelas mil aparências da felicidade, não passa de um operário no trabalho, cheio de uma boa vontade cega e dolorosa, se não fez, ao menos uma vez na vida, uma experiência miraculosa cuja lembrança é o seu único apoio e que procura sem cessar seguir e reencontrar: a de um estado cheio de facilidade e de simplicidade em que todas as suas faculdades recebem o seu jogo mais livre e mais necessário, que exclui o esforço porque o desfaz, que dá significado aos menores acontecimentos, a tudo o que vê, a tudo o que faz, e lhe traz sempre uma alegria que ultrapassa infinitamente a sua expectativa. De um tal estado, cada um de nós sente em si, na orla da consciência, a obscura e iminente presença, mesmo quando não consegue torná-la sensível; assim que ela se oferece, ele a abençoa: sente bem que, a cada instante, basta um acaso, uma ocasião, um encontro, um olhar de atenção, um movimento de abandono ou um simples ato de consentimento para fazê-la irromper. E é o seu luminoso reflexo que ainda o ajuda a suportar as horas mais cinzentas.
Quando a graça nos sustenta, não há nada que ela não nos ajude a aceitar, até mesmo o cansaço, até mesmo o sofrimento. Ela ocupa todo o campo da consciência e nos permite cumprir as tarefas mais diferentes e até mesmo as mais fastidiosas sem que a nossa alegria se esgote ou que a nossa unidade interior se rompa. Quando a graça está presente, deixamos de olhar para o futuro, de desejar e até mesmo de esperar: estamos plenos. E o sinal da graça é que o presente é sempre, para nós, transbordante.
Diz-se que a graça não é dada a todos e muitas vezes nos abandona. Então o que depende de nós é o que fazemos quando ela nos falta: o resto da vida só pode ser preenchido pela lembrança, pela espera confiante, pela paciência e pela imitação dos momentos em que a graça estava ali. Mas cabe-nos ainda vigiar para não deixá-la perder-se no momento em que a temos, conservar o seu fruto no momento em que ela se retira e, enfim, estar sempre prontos a acolhê-la no momento em que ela se oferece.
A graça sempre se infiltra em nós por caminhos que não prevíamos. Para termos certeza de que nada podemos sem ela, é preciso que nos tenhamos sentido ao menos uma vez completamente abandonados. Não se deve solicitá-la por uma oração dirigida a um deus exterior a nós, nem esperá-la como uma revelação ou um golpe de raio, nem lastimá-la como uma felicidade de que se foi desmamado; pois ela está em nós, mesmo quando não a vemos, e muitas vezes basta recolher-se em si, meditar e penetrar na sua presença misteriosa para torná-la de repente visível, como se a tivéssemos feito nascer.
Na união com Deus, só se trata, para nós, de nos prestarmos à sua ação; e a destruímos toda vez que tentamos antecipá-la ou forçá-la. Nada é mais difícil do que obter o perfeito silêncio do amor-próprio: o ardor mesmo que nos leva a Deus nem sempre está acima de censura, pois o amor-próprio sempre busca possuir, e às vezes pensamos que ele nos deixa justamente no momento em que adquire ainda mais domínio sobre nós.